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terça-feira, 29 de setembro de 2026

TALVEZ

 Talvez você tenha passado anos se perguntando por que sempre acaba ferido justamente pelas pessoas em quem mais confiou. Por que você dá outra chance, tenta compreender, perdoa, acredita, e no fim é você quem termina chorando e procurando onde errou. A resposta pode doer: muitas vezes você não virou alvo porque era fraco, mas porque tinha qualidades que alguém percebeu que poderia usar contra você. Você acreditava porque era verdadeiro. Perdoava porque sabia o peso de precisar de perdão. Dava outra chance porque enxergava o melhor nas pessoas. E enquanto tentava entender o outro, foi se abandonando. Chorava escondido, repassava conversas na cabeça, pedia desculpas por sentir, por perguntar, por colocar limite. E talvez essa seja a parte mais dolorosa: enquanto você procurava em si o defeito, havia alguém confortável em deixar você carregar uma culpa que não era sua. Você chamou de paciência o que já era exaustão, de misericórdia o que já era repetição, de paz o que era medo de confronto. Quantas vezes seu coração percebeu algo errado, mas você o silenciou porque não queria pensar mal de ninguém? Quantas vezes viu o padrão, mas escolheu acreditar na promessa? Algumas pessoas aprendem a sua bondade antes de você aprender os seus limites. Percebem que você suporta muito, que não gosta de abandonar ninguém, que procura justificativas e se culpa rápido. E aquilo que existe de mais bonito em você acaba virando o lugar onde mais te ferem. Mas a cura não é deixar de ser bom. É parar de se abandonar para manter alguém por perto. Perdoar não significa devolver acesso. Amar não significa permitir repetição. Jesus amava profundamente, mas João 2:24 diz que “não se confiava a eles, porque a todos conhecia”. E foi estudando psicanálise cristã, quase por curiosidade, que eu comecei a enxergar tudo isso de outra forma. Talvez você também precisasse descobrir isso hoje: não mate o que existe de bonito em você por causa do que fizeram. Continue tendo um coração bom, mas aprenda que nem todo mundo que bate à sua porta merece conhecer o caminho até ele.

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