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terça-feira, 13 de outubro de 2026

SERES


“O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria” (Pv 18.1).

Um dos maiores mistérios da realidade é a existência em Deus. Valendo-se de um dito de Epimênides, seguido por outro de Arato, Paulo afirma em seu discurso em Atenas: “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração” (At 17.28). Isso implica que tudo o que existe, existe em Deus. Colocando isso de outra forma, o próprio Criador é o espaço da existência de toda a Criação. É necessariamente assim, pois a capacidade de existir por si mesmo pertence unicamente a Deus. O Senhor nos empresta sua realidade para que possamos existir. Antes da Criação, do fiat divino, tudo não passava de uma “imaginação” na mente do Criador. Todas as coisas já existiam apenas como propósito divino.

O fato de tudo existir em Deus faz compreender que toda realidade, mesmo o diabo e seus anjos, todos os ímpios, e o próprio inferno – lugar das penas eternas –, também estão em seu ser. Certamente, o fato de toda existência ser garantida pelo ser divino não significa qualquer participação sua no mal ou na iniquidade. O Senhor não pode ser contaminado pelo pecado. Tal ideia é absurda, pois o que caracteriza seu ser é a pureza, a perfeição e a santidade, a glória absoluta. Ele não pode negar a si mesmo, sua própria essência. Contudo, isso nos ajuda a entender a gravidade do pecado, pois ocorre ante a presença do Senhor, no “espaço divino”.

De certa forma, é isso o que o apóstolo Paulo quer dizer quando ensina que Deus suporta vasos de ira preparados para a perdição (Rm 9.22). Sua argumentação ali é comparativa, contrastiva, pois afirma que a condenação dos perdidos exalta a misericórdia e a graça de Deus em salvar os eleitos. Devemos, portanto, compreender que, uma vez que a existência de todas as coisas ocorre no ser divino, a perfeição original preservada no primeiro casal possibilitava uma vida de união com o Criador, identidade de vontade e atos. Se não fosse o pecado, todos os descendentes de Adão seriam um com o Criador. Não há bênção maior do que essa!

Nisto se expressa os maiores anseios humanos, mesmo aqueles que já não pode ter o pecador devido à sua natural iniquidade. Em seu propósito eterno, o Senhor já havia determinado a vinda do Salvador, em quem todos os eleitos estariam unidos. A unidade original com o Criador é retomada e acentuada quando a divindade se une definitiva e irreversivelmente à humanidade em Jesus Cristo, o Deus-homem e homem-Deus. Fomos criados para a unidade; fomos salvos para a unidade. A queda do homem é o maior fator da individualidade humana. Certamente, mais do que mera individualidade: puro egoísmo. Afinal de contas, quem pretende ser seu próprio deus não quererá dar ouvidos a outras pessoas, muito menos servi-las.

Curiosamente, o Deus verdadeiro o fez, assumindo forma humana e dando a própria vida por pecadores. O egocentrismo é a marca de um ser-humano caído. Portanto, não é necessário incentivar alguém a pensar em si mesmo: esse já é o seu normal. Não é nenhum assombro, então, perceber que o constante afastamento do homem de seu Criador cause a ênfase cada vez maior do ego de cada um. Notamos essa nociva influência mesmo dentro das igrejas, onde os chamados crentes não têm mais interesse em servir o próximo, em ajudá-lo em suas dificuldades. Busca-se a Deus, tão-somente, para si mesmo. Os próprios cânticos espirituais passaram a refletir tal tendência, quando suas letras abandonaram o “plural” e tornaram-se “singular”. Passou-se a usar o “eu” e o “meu” em substituição ao “nós” e ao “nosso”.

No entanto, não há vida cristã sem a coletividade dos salvos. Embora a salvação seja eminentemente individual e pessoal: jamais haverá conversão coletiva, quando se participa da conversão do outro, a prática cristã é centrada no coletivo. De certa forma, a particularização exagerada da obra do Salvador, como se Cristo tivesse morrido objetivamente “por mim” parece estreitar demais o relacionamento do crente, como se a vida do salvo fosse marcada apenas por um relacionamento com Deus, individual, estritamente vertical. Isso é a base para alguns imaginarem que é possível viver uma vida com Deus sozinho, uma igreja de um só. Deus olha para os seus como igreja, um ajuntamento. Ela é descrita como “corpo” de Cristo, onde todos os crentes estão integrados a Cristo, juntos. A igreja também é Templo do Espírito, constituído pela junção de todos os salvos.

A proposta de buscar a Deus sozinho é não fazer parte do corpo de Cristo, não ser Templo do Espírito. Mesmo as ciências humanas e seculares descrevem o homem como “um ser social”. Isso quer dizer que ele não nasceu para viver sozinho. Já a partir da necessidade de se completar com o sexo oposto, fica claro que o ser-humano não é uma ilha. Desde o momento do seu nascimento, ele necessita, sob risco de grandes desequilíbrios e transtornos na formação de seu caráter, ter o cuidado de um pai e de uma mãe, melhor ainda quando vierem os irmãos. Cresce em um lar formado por pessoas ligadas a ele por vínculos sanguíneos e sentimentais, aprendendo a se relacionar, algo que terá que fazer até o fim de sua vida.

A busca da solidão não é normal, muito menos, recomendada. Ela isola o ser-humano do convício de seus semelhantes, tornando-o alguém centrado em si mesmo. A proposta da solidão é, de um modo ou de outro, arrogante. Aqueles que convivem bem com o ostracismo, mostram soberba por acharem que se bastam. Não precisam de pessoa alguma. Vivem bem sozinhos. Já os que reclamam da solidão, mas jamais a abandonam, como diz Nietzsche (se é possível encontrar alguma coisa que preste em suas ideias) tem orgulho em sua própria depreciação. É verdade! Há pessoas que exaltam a sua própria inferioridade. De qualquer forma, melhor é a formulação do princípio por Salomão: o solitário busca o seu próprio interesse. Digno de nota é o provérbio afirmar que a solidão significa laborar contra a verdadeira sabedoria. Como argumenta o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20). Em outras palavras, é impossível amar a Deus se não amarmos igualmente o nosso próximo. Portanto, a proposta de uma vida reclusa, afastada do convívio das pessoas, ao invés de espiritualidade, implica afastamento de Deus.

Aprendamos que os relacionamentos são as únicas bênçãos eternas que temos: tesouros da alma. O que se guarda na alma são os únicos valores reais, que nos acompanharão além da morte. Tudo o mais é passageiro, relativo à presente existência. A começar do nosso relacionamento com o Senhor, mas também o amor fraternal, são bênçãos preservadas na alma, para serem continuadas de forma plena e perfeita na eternidade. Que verdade maravilhosa! A igreja, o relacionamento, são eternos. Assim, valorizemos os relacionamentos, sendo meios de edificação para crentes e de pregação para incrédulos. Tenha um excelente dia na presença de Deus

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