Medos
“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:18,19).
A vida de um pecador poderia ser descrita como medo. A cena que mais a traduz é quando o primeiro casal ouve a voz do Criador se aproximar, logo depois de terem comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e desobedecido. Dizendo isso de outra maneira, a vida de um pecador ocorre sempre na perspectiva do juízo.
Todavia, mesmo o ímpio, por natureza, aprendeu instintivamente a confiar na misericórdia de Deus, ainda que não a reconheça. Isso quer dizer que, embora saiba que quaisquer dos males que afligem os filhos dos homens possam lhe atingir, entende que há certa estabilidade mesmo para a vida neste mundo. Compreende que a grande maioria dos homens não sofre constantemente com problemas súbitos, que lhe causam sofrimentos que comprometam a própria existência.
No entanto, não se trata de base sólida para viver, mas uma insegurança constante por não saber o que está adiante. No Éden, embora Adão não soubesse o que estava à frente e não pudesse prever o futuro, havia plena segurança por saber que o que o futuro lhe aguardava era apenas felicidade e bem-aventurança na eternidade de Deus. É interessante que o homem caiu, se tornou pecador, se afastou do Criador, está debaixo da ira de Deus, mas ainda mantém a mesma perspectiva das melhores coisas, esperando sempre que seus propósitos sejam alcançados e que sua vontade seja realizada.
Talvez seja o próprio pecado que mascare sua existência. Vivendo como um deus para si, acredita que mesmo a existência convergirá para fazer cumprir aquilo que ele deseja. Busca a segurança na perspectiva da realização de seus planos e projetos, não no Senhor. É isto o grande motor da sua realidade: a procura constante da saciação de sua vontade. Se tirar as perspectivas de um pecador sem Cristo, não lhe sobra nada, nenhum motivo para viver. Eis a causa de muitos suicídios.
É aí que percebemos a grande diferença que há entre alguém que verdadeiramente conhece a Jesus e quem não o conhece. Para o que não conhece genuinamente o Salvador, Cristo será para ele simplesmente mais um meio para alcançar seus propósitos e realizações. Continuará estribado na perspectiva da consumação de seus anseios e vontades. Para aquele que conhece Jesus, ele é o seu tudo. Ainda que todas as coisas lhe sejam tiradas, perceberá a presença do Salvador em seu coração, preenchendo-o completamente. Não haverá vazios.
A fé genuína é resultado do retorno ao relacionamento devido com o Criador, agora entendido como Salvador. A completa ausência de medo que havia no paraíso pela falta e inexistência do mal é substituída pela certeza da vontade e da presença de Jesus diante de todo mal, dor e sofrimento. A insegurança e a vertigem de não saber o que está à frente dá lugar à paz e a certeza, à garantia da companhia ininterrupta do Salvador a cada segundo de nossa vida. É fazer do Senhor nossa fortaleza, ainda que tudo possa nos parecer perdido: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam” (Sl 46:1-3). É o reconhecimento do seu amor, que pertencemos a ele, e que de suas mãos ninguém nos pode tirar.
O texto epigrafado é muito sugestivo. Geralmente entendemos o amor como um sentimento, mas para o apóstolo João, Deus é o próprio amor. Quando fala do “perfeito amor” está aludindo ao Senhor, à necessidade de experimentarmos quem ele é. A nossa vivência diária com Jesus é o que faz com que nos sintamos eternamente amados, o que tem como resultado a mais completa falta de medo. É por isso que o perfeito amor, a experiência com Cristo, nos traz novamente à realidade edênica da segurança inabalável, não porque não teremos problemas, mas porque cremos e confiamos no propósito e na presença de Jesus conosco.João mostra claramente que o medo não é uma virtude, não é benéfico. Ao contrário: traz enorme prejuízo. Ele é corrosivo e paralisante, verdadeiro tormento antecipado das coisas.
Não devemos nos permitir o medo, convivendo com ele como se fosse inofensivo. O resultado será uma vida amargurada, sem alegria e desesperançada. O medo precisa ser combatido ferozmente pela confiança inabalável do amor de Deus. Assim, ao invés de medo, devemos ser aperfeiçoados no amor, na gratidão para com o Salvador, por tudo o que ele é e fez por nós. Servimos integralmente ao Deus trino porque reconhecemos seu grande amor para conosco em Cristo Jesus.
Os problemas e dificuldades, as dores e os sofrimentos, se tornam ocasiões de aperfeiçoamento para nós, quando nos rendemos completamente à vontade do Pai, crendo que ele nos guiará sempre para o melhor, ainda que seja entre muitas lágrimas.
Um evangelho mentiroso prega a ausência de problemas nesta terra, que Jesus irá nos livrar das dores e dificuldades. O verdadeiro evangelho é aquele que aprende a se apropriar da vitória de Cristo na prática diária, no enfrentamento de todo problema e sofrimento: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16:33).
Busquemos diariamente ao Senhor. Não apenas aprendamos, mas experimentemos e vivamos o amor, que é a presença do próprio Deus diariamente em nossa vida. Confiemos inabalavelmente em sua vontade, sem questionar. Fé é confiar, descansar no propósito do Senhor, não que ele necessariamente fará nossa vontade. Ao invés de medo, paz. Ao invés de insegurança, certeza. É assim que experimentamos um pouco do Éden perdido todos os dias. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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