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sexta-feira, 24 de abril de 2026

SEM

 Sem perspectivas?

"Por que dura a minha dor continuamente, e a minha ferida me dói e não admite cura? 

Serias tu para mim como ilusório ribeiro, como águas que enganam?" (Jr 15.18).


Há situações em nossa vida nas quais não vemos perspectivas. São ocasiões de dores, quando humanamente não parece haver saída. Problemas de grande intensidade têm a capacidade de atrair exageradamente a nossa atenção, o nosso foco. O resultado é que concentramos nossa visão quase que exclusivamente neles. Nessas situações, parece nos faltar não somente perspectivas para a solução do problema, mas igualmente qualquer expectativa quanto a qualquer coisa. Sentimo-nos desanimados, verdadeiramente consumidos. Olhamos para nós mesmos com comiseração. À dor que sofremos soma-se a de sabermos que estamos com problemas. Entramos como em um looping, uma repetição contínua causada pela realimentação do sofrimento ao olharmos para nosso próprio estado de miséria interior e nos entristecer por isso.

O que ocorre é que nos tornamos como contempladores de nossa própria dor. Olhando como que para um espelho, vemos a nós mesmos e sentimos intenso sentimento de pena. Diz o sábio Salomão que: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate” (Pv 15:13). Da mesma forma que a alegria interior modela nossa aparência, a amargura do coração é a própria tristeza do espírito. Ao nos vermos tristes, consolidamos essa visão de nós mesmos em nosso coração, passando naturalmente a nos deixar modelar pela amargura.

Nossa vida sempre refletirá o nosso interior. Se estamos felizes, nossas atitudes leves e alegres demonstrarão isso. Se, ao contrário, estivermos tristes, nossas palavras tenderão a mostrar falta de brilho, envolvendo atos e palavras em trevas existenciais, deixando de nos apropriar daquela luz que apenas Jesus pode conceder. Permitimos que Cristo, como sol ao meio-dia, comece a ser encoberto por densas nuvens das tempestades que enfrentamos, fazendo escurecer os dias de nossa alma. O prolongamento das dificuldades e dores vão tornando cada vez mais densas as nuvens escuras, cimentando em nossa alma o senso que a tempestade jamais passará, que jamais veremos dias de luz novamente. Corremos o risco de assumir o vitimismo como normal, abrindo uma porta para a interminável depressão.

O texto epigrafado mostra o profeta Jeremias expressando algo semelhante. O reino do norte já havia caído. Seu próprio povo, os habitantes do reino de Judá, estavam desviados e não apenas se mostravam herméticos e insensíveis à sua mensagem, como também o perseguiam por causa daquilo que anunciava. Devido a essa realidade, o profeta sabia que o exílio já era algo inevitável. Soma-se a isso ter recebido como resposta às suas queixas algo muito diferente do que esperava e pretendia. Geralmente ansiamos como resultado de nossas súplicas algo positivo, que se ajuste à nossa necessidade urgente. Ao recebermos como resposta aquilo que é diametralmente oposto aos nossos enseios e necessidade, às vezes, exatamente aquilo que não queríamos, nossa amargura assume contornos de abandono, como que desprezados por Deus. Nosso vitimismo se torna consistente e exuberante. Perdemos a perspectiva da vida e nos tornamos cegos para as muitas bênçãos que o Senhor tem derramado.

Nesse ponto é comum ao crente ter pensamentos blasfemos. Foi o que ocorreu com o profeta do texto epigrafado. Seu questionamento final, perguntando se o Senhor seria para ele “ribeiro ilusório” e “águas que enganam” é extremamente pesado, uma acusação contra Deus, como se tivesse sido iludido ao esperar e confiar no Senhor. A expressão “ribeiros ilusórios” traduz um único termo na língua hebraica que alude aos rios temporários do território de Israel. Estritamente falando, a Palestina tem apenas um rio de fato: o Jordão, pois nunca seca. Os demais podem ou não resistir até o próximo período de chuvas. Em Israel chove cerca de quatro a cinco meses por ano, seguindo-se período de estiagem total até o próximo ano. Viajantes e caravanas inteiras pereceram por acreditar que encontrariam água em um rio cujo leito se encontrava completamente seco. Assim, entendemos o peso blasfemo das palavras com as quais Jeremias se dirigiu a Deus: “confiei no Senhor e, ao invés de vida, encontrei a morte?”

Nesses momentos, perdemos a lucidez e somos acometidos de certo desespero. A argumentação do profeta se tornou apelativa, desrespeitosa e desesperada, Acreditamos que usar palavras fortes e de acusação contra Deus pode levá-lo a mudar seu procedimento e propósito, como que levá-lo a ter “peso de consciência”. Jamais! Apenas dificulta enormemente a nossa situação, tornando nossa vontade ainda mais recalcitrante, teimosa e contumaz.

Não podemos perder de vista a visão do Deus amoroso, que sempre cuida dos seus filhos. A experiência comum de todos os que passam por dificuldades extremas e grandes dores ou perdas é perceber a mão do Senhor a conduzi-los. Ao nos permitir ser contaminados e tomados pela amargura, tonamo-nos cegos para a Providência de Deus se manifestando, dando os meios e o direcionamento para passarmos pelos momentos de trevas, verdadeira lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. Por sua Palavra sabemos como proceder. Confiando nele seremos conduzidos ao porto seguro e, finalmente, ao eterno dia de luz.

Olhemos fixamente para Jesus, o Autor e Consumador de nossa fé, não para os problemas. Tenhamos uma visão vertical, olhando para o céu, para as coisas do alto. Deixemos a visão horizontal que fixa as coisas desta terra. Lembremos que Jesus está conosco todos os dias até a consumação dos séculos, que ele sabe o que é sofrer como homem de dores, que foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança, mas sem pecado. Não seremos jamais abandonados. Busquemos vida profunda com Jesus, confiança e louvor mesmo no meio dos maiores sofrimentos e dificuldades. Tenha um abençoado dia na presença do Salvador 

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