“Disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Êx 14.15).
Nossos poucos dias nesta terra passam acelerados. Nós não somos meros expectadores, mas atores. Esforçamo-nos por não ser arrastados por essa esteira veloz que corre sob nossos pés, tentando pegar e fazer o que nos compete. Sem dúvida, a vida exige constante esforço ainda que seja apenas para não nos deixar arrastar por tudo o que acontece. Todavia, nessa “longa estrada da vida”, que talvez seja mais curta do que supomos, não raro podemos nos deparar com situações que parecem intransponíveis.
No entanto, o problema não está na existência, mas na concepção que temos dela. Certamente, este é um mundo amaldiçoado pelo pecado, o que faz com que aquilo que lhe seja comum sejam dores, problemas, traições, doenças, ou seja, várias modalidades de morte e suas consequências. Curiosamente, temos o mau hábito de viver como se os problemas não existissem. Claro que todos nós temos a plena certeza das dores e dificuldades que existem, porém parece que existimos como se elas jamais nos alcançassem, ou, pelo menos, os maiores sofrimentos. Para nós o pior sofrimento é sempre aquele que nós estamos passando. Não olhamos para o lado e consideramos coisas piores enfrentadas por outras pessoas.
Contudo, qual seria o maior de todos os sofrimentos? É possível mensurar isso, estabelecendo uma escala de intensidade? Falando-se estritamente, não, pois os sofrimentos estão associados à fatores emocionais. Sofrimentos são sempre individuais, pessoais. Não há como sofrer o sofrimento de outro, apenas desenvolver o seu, ainda que causado pela dor alheia. Nunca será o mesmo. Ainda que duas pessoas passem pela mesma perda, pela mesma enfermidade, serão sofrimentos diferentes, pois pessoais, associados à personalidade de cada um. Há pessoas mais resistentes às dores físicas e às agonias da alma do que outras. O sofrimento aumentará exatamente quando essas duas esferas de sofrimento se somarem na experiência de um pecador, quando ele permite que o sofrimento físico passe a ser também o sofrimento de sua alma e vice-versa.
Aquele que parece ter mais sofrido nesta terra, depois do próprio Cristo, teve acrescentado sofrimento sobre sofrimento, somando sofrimentos do corpo a sofrimentos da alma. Jó perdeu seus bens materiais, seus filhos, adoeceu terrivelmente, sua esposa se voltou contra ele e contra Deus e abandonou o marido, foi acusado por pecados que não cometeu. Os maiores sofrimentos são sempre a soma dos sofrimentos da alma aos do corpo. Eis por que os ímpios também ressuscitarão: não lhes bastará o sofrimento apenas espiritual. Será necessário sofrerem também no corpo. O grande desafio do crente é sofrer dentro dos limites do seu sofrimento, sem transitar da alma para o corpo, ou do corpo para a alma.
O primeiro percurso, da alma para o corpo, é causado por situações nas quais nos tornamos tão pesados e amargurados por um problema não-físico, mas que passa a afetar o corpo por transferirmos para o organismo as tensões espirituais. De certa forma, isso será inevitável, se nos permitirmos tamanho grau de agonia. Jesus suou sangue no Getsêmani, tamanha a agonia que padecia. É o médico Lucas que nos conta: “E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc 22.44). Como homem perfeito, Jesus não tinha qualquer prazer no sofrimento que estava a passar, mas sua vontade moral, aquilo que tinha plena certeza ser o certo a fazer, por ser exatamente o propósito de sua encarnação, o compelia adiante. Seu corpo refletia a profunda agonia de sua alma.
Davi, de quem descendeu o Cristo, fala que a reprovação de Deus que se abatia em sua alma devido a seus pecados ocultos lhe fez envelhecer os ossos, roubando suas forças e disposição (Sl 32.4). Agonias de alma, causadas por culpas, preocupações, com frequência levam o corpo a padecer e, até mesmo, enfermar. No percurso oposto, dores físicas podem levar a alma a perder a perspectiva da alegria que temos diante de Deus, alijando o desejo pelo Senhor, a gratidão e a alegria. Por isso, se sofremos em apenas uma das esferas, ou no corpo, ou na alma, nossa responsabilidade é não permitir que a dor transite de uma esfera para outra, intensificando enormemente nossas dores.
Se o corpo padece, preservemos e invistamos na saúde de nossa alma: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate” (Pv 15.13). Se alma padece, busquemos o Senhor para voltar a um relacionamento sadio com ele, a fim de que nosso corpo não sofra. Embora isso pareça óbvio e redundante, o sofrimento físico é causado sempre por causas físicas, e os sofrimentos da alma, por causas não físicas. Refiro-me aos sofrimentos típicos dessas esferas, não ao trânsito das dores de uma para outra, isto é, não ao empréstimo da dor da alma ao corpo e vice-versa. A dor física é causada por questões externas como doenças, acidentes, ainda, pela ação de homens e animais.
A dor na alma pode ser causada por questões exteriores ou interiores. No primeiro caso, é resultado de assimilações e entendimentos da alma, quando abrimos nosso coração para aceitar terríveis estímulos daquilo que ocorre fora de nós. Podem ser atritos com pessoas, traições, presenciar situações de grande dor alheia, o medo e a preocupação, a ansiedade de que alguma coisa que queremos muito que aconteça ou que queremos muito não se concretize. No segundo caso, por pecados não confessados e culpas. Em todo e qualquer sofrimento, quer seja o do corpo, quer seja o da alma, a administração deles será sempre domínio da alma. Nosso espírito é quem deverá reger e administrar todas as nossas dores, entendê-las do ponto de vista divino, aceitá-las.
Aqui está algo muito importante: geralmente achamos que o sofrimento deve ser extravasado, liberado, uma explosão emocional, uma espécie de liberdade de expressão sem filtro daquilo que sentimos, legitimada pelo próprio sofrimento. Aprendamos que temos que estar no controle e no domínio de nossas dores e sofrimentos, nunca o contrário. Nosso único e maior exemplo, pregado à cruz, em profunda dor no corpo e agonia na alma, jamais perdeu o controle de suas dores e de seu sofrimento. Mesmo padecendo dores incalculáveis foi capaz de orar suplicando o perdão por aqueles que o matavam, de ouvir a súplica de um penitente crucificado ao seu lado, de orientar João a cuidar de sua mãe, de cumprir conscientemente tudo aquilo que havia sido profetizado, aquilo que tinha sido decretado pela Trindade antes da fundação do mundo. Pôde dizer em pleno domínio da situação: está consumado e entregar sua alma ao Pai. Agitou-se apenas quando o inferno subiu à cruz, momento em que clama a Deus esmagado por nossos pecados.
Este é o maior de todos os sofrimentos: dores físicas e agonia incomparável de alma, desamparado de Deus e debaixo de condenação, o próprio inferno. Por isso, embora ainda distante daquela realidade, talvez seja possível dizer que há pessoas, mesmo crentes, que se permitem a viver vidas infernais. O controle de nossos sofrimentos está ligado ao domínio e à sujeição de nossas vontades. O descontrole emocional é decorrente de não aceitarmos algo, ainda que seja a dor física. Se assimilarmos todas as coisas do ponto de vista de Deus, mesmo não entendendo os acontecimentos e os propósitos do Senhor, dobrando a nossa vontade e aceitando docilmente o que temos que enfrentar, não haverá amargura em nossa alma.
Sofrer não é pecado. Pecado é se entregar à amargura que não admite cura, uma vida exilada de Deus como se Jesus não existisse, como se não tivéssemos o próprio Espírito de Deus em nós. Não queiramos controlar os acontecimentos, apenas nosso sofrimento, domando e dobrando nossa vontade, humilhados diante de Deus por negarmos nossa própria vontade, clamando sinceramente: “seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”. Os sofrimentos são paralisantes. Temos no Senhor a habilidade para lançar sobre Cristo todas as nossas ansiedades (1 Pe 5.7), sobre o Sumo Sacerdote que mesmo elevado às alturas sabe o que é sofrer (Hb 4.15). Ainda que a barreira pareça intransponível, sigamos adiante, confiados nas promessas de Deus, conforme o texto epigrafado. Deus se constitui em lugar seguro, firme, onde todos devemos nos radicar. Clame, pois: “Leva-me para a rocha que é alta demais para mim” (Sl 61.2). Tenha um excelente dia na presença de Deus
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