“Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim também acontecerá a esta geração perversa” (Mt 12.45).
Até mesmo a sabedoria popular reconhece que: “É necessário cortar o mal pela raiz”. Para que se elimine realmente aquilo que é nocivo, necessário se faz erradicá-lo por completo. O verso acima fala especificamente de possessões demoníacas. Não há como negar que elas existem e que estão claramente narradas nas Escrituras. Curiosamente não as vemos no Antigo Testamento, possivelmente por ser a luta da igreja, naquele período, eminentemente física. Sendo uma nação política, constituída de rei e exército, o Inimigo buscava erradicá-la por meio de outras nações e outros exércitos. Era uma luta espiritual que se dava mormente por meios físicos. É certo que não quer dizer que o diabo não tentava, que não havia embates realmente espirituais.
Provavelmente a história mais conhecida sobre a atuação direta do diabo na vida de alguém está exatamente no Antigo Testamento: o livro de Jó. Entendamos que não apenas as tragédias em sua vida foram causadas pelo diabo, como a morte de seus dez filhos, a perda de todas as suas posses e de sua saúde. O Maligno tem outros meios! Também a esposa de Jó e seus amigos mais chegados foram instigados para serem “boca do diabo”, agindo da forma como está relatada no Livro. No Novo Testamento temos a maior atividade demoníaca jamais vista, devido ao fato de o Senhor ter se encarnado. O povo de Deus passa a viver nova realidade: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). A batalha se torna estritamente espiritual.
É muito importante entender que um crente genuíno jamais pode ser possuído por satanás. Todo nascido de Deus é Templo do Espírito. Uma possessão demoníaca de alguém que verdadeiramente crê em Cristo é o equivalente a dar e executar ordem de despejo a Deus, colocando “no olho da rua” o Espírito Santo. Absurdo! O apóstolo João afirma: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (1 Jo 5.18). O Maligno é claramente uma referência ao diabo.
Entendemos assim, que o crente jamais por ser possuído, mas frequentemente é oprimido por satanás e manipulado por ele. No primeiro caso, a opressão se dá em momentos em que o Maligno está muito perto de nós, tentando de todas as formas, principalmente levando-nos ao questionamento da fé. São momentos de trevas, quando parece que fomos abandonados por Deus, solidão e vulnerabilidade da alma. No entanto, Cristo foi abandonado pelo Pai na cruz por alguns momentos para que nós jamais fôssemos abandonados nem mesmo por um momento pelo Senhor. Ao darmos ouvidos às tentações, o brilho da glória celestial vai se apagando em nossos olhos, as coisas parecem sem sentido e sem cor, nossos olhos espirituais vão se embranquecendo, tornam-se embaçados.
Na Carta de Paulo aos Efésios, o apóstolo fala da necessidade de nos revestirmos da armadura completa de Deus, como único recurso para resistir firmes nos dias maus (6 .13). Há dias maus, permitidos por Deus, nos quais o diabo está mais próximo de nós, agindo de forma mais intensa. Isso é o que se chama “opressão espiritual”. Não é possessão. Dois versos atrás, Paulo já havia afirmado a necessidade do revestimento da armadura de Deus para poder resistir às “ciladas do diabo” (v. 11). A palavra traduzida como “cilada” é a palavra grega methodéia, de onde vem a nossa palavra “método”. Isso quer dizer que os ataques de satanás não são agressões desvairadas, o descarregar de pura agressividade ou a acesso de raiva, mas ofensivas planejadas, coordenadas, inteligentes. Ele nos estuda e percebe nossas fraquezas e propensões. Dessa forma, realiza ataques cirúrgicos nas áreas onde mostramos mais fragilidade.
De igual forma, por ter tal conhecimento de nossa vida, pode também utilizar nossas fraquezas a fim de nos manipular, para nos levar a causar o dano que ele deseja. Podemos, até mesmo, ser usados para tentar alguém, como poderosa ferramenta nas mãos dele. Esse foi o caso do apóstolo Pedro. Querendo que Jesus assumisse um reino político na Judeia e expulsasse os romanos, esse apóstolo repreende o próprio Cristo quando este revela que seria entregue nas mãos dos principais de Jerusalém e dos sacerdotes, o que inevitavelmente levaria à sua morte. Assim narra o apóstolo Mateus: “E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16.22, 23). Jesus repreende o próprio diabo na pessoa de Pedro!
Todavia, é muito importante compreender isto: o apóstolo não estava sendo possuído, mas manipulado por satanás a partir de sua fraqueza. Pedro infantilmente age exatamente como o diabo esperava. Mesmo alguém que conhece verdadeiramente a Cristo pode ser poderoso instrumento nas mãos do diabo, se fizer aquilo que Jesus condena na atitude de Pedro: “não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens”. Recorrendo novamente à sabedoria popular, mesmo ela reconhece: “de boas intenções o inferno está cheio”. Ainda que agindo com boas intenções, se estou preocupado com o que eu quero e não com o que Deus quer, serei um poderoso instrumento do diabo. Portanto, o verdadeiro crente é oprimido pelo diabo em dias maus, também pode ser manipulado por ele a partir de suas fraquezas, mas nunca possuído.
O verso epigrafado mostra uma certa dinâmica que rege a ação do Maligno na vida de um ser humano. Tratando-se de possessão, uma vez que é expulso o(s) demônio(s) da vida de um não convertido, se este não aceitar Cristo como seu Salvador, o demônio voltará com uma possessão ainda mais forte, possivelmente com mais demônios, uma espécie de tentativa de garantir que não será novamente posto para fora. Digamos que esse é um princípio geral para todo mal, incluindo os pecados que praticamos. Se abandonamos pecados apenas por um tempo e voltarmos a eles, o segundo estado será sempre pior do que o primeiro.
Significa dizer que o mal que pratico estará ainda mais arraigado, reafirmado, fortalecido em minha vida. Como acabamos de dizer, o segundo estado sempre será pior do que o primeiro. Certamente, isso não deve levar ao sofisma de alguém não querer abandonar um pecado com receio de que volte a ele. É necessário abandonar definitivamente tudo aquilo que ofende a santidade de Deus em nossa vida, experimentando a glória de uma vida liberta definitivamente de pecados.
Cuidemos com a reafirmação do mal, quer pela simples fraqueza, quer pela sua legitimação através de “releituras”, “ressignificações” ou qualquer outra doutrina de demônios. Vivamos associados apenas à luz, nada de trevas, somente a Deus, não ao diabo. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
Nenhum comentário:
Postar um comentário