Provérbios 26:11.
Para entender a força dessa declaração, precisamos abandonar a imagem do cão domesticado que conhecemos hoje e entrar no mundo bíblico. No Antigo Testamento, o cão frequentemente aparece em contextos negativos, associado à impureza, à violência e àquilo que era desprezado. Foram cães que comeram a carne de Jezabel, cumprindo uma sentença anunciada pelo profeta Elias. No Salmo 59, Davi compara homens violentos a cães que vagueiam pela cidade, rondando as ruas e procurando algo para devorar.
Naquele contexto, os cães não ocupavam o lugar afetivo que muitos ocupam em nossas casas atualmente. Eram frequentemente animais semisselvagens, que circulavam pelas cidades em busca de alimento. Reviravam restos, procuravam aquilo que havia sido descartado e consumiam até mesmo coisas deterioradas.
É exatamente dentro desse cenário que Salomão constrói uma das metáforas mais contundentes de toda a literatura sapiencial. O cão pode ingerir algo nocivo. Seu organismo reage e expulsa aquilo que não lhe fez bem. O que era tóxico é rejeitado. O que poderia continuar prejudicando seu corpo é colocado para fora. Mas, depois de expelir aquilo que lhe fazia mal, o animal pode retornar e consumir novamente o que seu próprio organismo havia rejeitado.
É essa contradição que Salomão coloca diante dos nossos olhos. O insensato é aquele que retorna ao que já deveria ter sido definitivamente rejeitado.
Salomão não está descrevendo alguém que caiu sem perceber. Está descrevendo alguém que repete conscientemente a própria estultícia. O insensato já viu o resultado. Já experimentou as consequências. Já sofreu o prejuízo. Já recebeu a correção. Ainda assim, retorna.
Ele não volta porque não sabe. Ele volta porque não aprendeu. Esse é o drama de muitas pessoas.
Deus as tirou de determinados lugares, mas elas continuam desejando aquilo que deixaram para trás. O corpo saiu, mas o coração permaneceu. A porta foi fechada, mas a memória continua aberta. E, então, aquilo que quase destruiu sua vida começa a parecer atraente novamente.
Quem foi transformado por Deus precisa aprender a olhar para determinadas coisas e não sentir saudade, mas gratidão por ter sido liberto.
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