O Deus para o qual os cristãos oram todos os dias chorou em um berço, sofreu em vida e foi torturado antes de morrer.
Em sua morte, Dele escondemos o rosto, tão precariamente envelhecido e tão machucado.
O Deus que se fez carne, não procurou se defender, sendo aprisionado, esbagaçado e forçado a carregar a cruz do seu suplício.
Eis o Deus proclamado pelo cristianismo: um profeta desarmado, um homem indefeso frente ao mal, uma divindade esvaziada.
Jesus mostrou que o Todo-Poderoso se tornou um ‘escombro’ humano: estamos aqui no âmago do paradoxo do Evangelho, e da ‘loucura da cruz: sem explicar as raízes do mal, a Boa Notícia nos garante que Deus optou em compartilhar nossa condição, por mais assustadores que fossem nossos sofrimentos e penas.
Em Cristo, o paradigma da cruz representa a agonia humana até o fim do mundo.
Enquanto durar a história, o homem-Deus permanecerá como símbolo de todos os que sofrem.
Ele ressuscitou e sua vida triunfante sobre a morte tornou-se, assim, símbolo potente de esperança.
Apesar de indicar derrota a cruz não foi apagada; ela permanece se me permitem dizer, como única defesa contra o otimismo ingênuo; só seremos realistas (diminuindo qualquer positividade ingênua) se em nossa mensagem couber o Cristo crucificado.
Claudel com razão escreveu em algum lugar: ‘Deus não veio explicar o sofrimento; ele veio preenchê-lo com sua presença’.
Insisto: os insatisfeitos com os modelos teológicos tradicionais ousem aventurar – e arriscar – pensar fora dos enlatados; jamais esqueçam da rude cruz que se erigiu e contemplem-na como maior emblema da fé, pois nela Deus escancarou seu compromisso de ser parceiro em nossas vicissitudes existenciais.
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