A certeza de que partiremos sem nada se faz convite para vivermos de forma mais leve e sem tantos apegos. De fato, é curioso perceber quanto esforço colocamos em acumular coisas que não atravessam conosco a última porta. Trabalhamos, planejamos, compramos, defendemos espaços, buscamos segurança, reconhecimento e alguma sensação de controle. Tudo isso pode ter seu lugar, porque a vida concreta também precisa de cuidado. O risco começa quando as mãos ficam tão ocupadas em segurar que a alma já não encontra espaço para respirar. Há conquistas que ajudam, mas há outras que aprisionam silenciosamente. A pessoa vai tendo mais, e, sem perceber, vai sendo menos presente, menos disponível, menos inteira. O mundo costuma medir sucesso pelo que aparece, Deus olha para aquilo que se torna vida dentro de nós. Ele conhece as obras discretas, as renúncias sem aplauso, o amor que não foi fotografado, o perdão oferecido em silêncio, a paciência exercitada quando ninguém viu. É isso que enche a alma. Não é a quantidade de bens, mas a qualidade do coração que vai se formando pelo caminho. Um dia, tudo o que carregamos por fora ficará para trás. O nome, a casa, os objetos, as urgências, as preocupações que pareciam enormes. Permanecerá o amor que fomos capazes de viver. Permanecerá a bondade que espalhamos, a fé que sustentou nossos passos, a ternura com que tratamos pessoas frágeis, a esperança que mantivemos acesa mesmo em tempos difíceis. Encher a alma é viver de modo que o essencial não seja esquecido no meio do necessário. É usar as mãos para trabalhar, sim, mas também para acolher, levantar, repartir, abençoar. Quem aprende essa sabedoria não despreza as conquistas, apenas não permite que elas ocupem o altar do coração. Porque a vida se torna mais leve quando as mãos sabem soltar e a alma aprende a permanecer cheia de Deus, de amor e de sentido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário