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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CRENTE

 O crente verdadeiro jamais apostata (parte 1)

“Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou da graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1.6).

 O apóstolo Paulo habilmente construiu sua introdução à Carta aos Gálatas de modo a já começar, não apenas a reconhecer o problema dos seus integrantes, mas também, de certa forma, a tratá-lo. A ênfase do apóstolo, aquilo que destacou quanto ao seu ministério, sempre foi o próprio Deus, em sua obra por meio de Cristo. Toda glória foi sempre atribuída a Jesus, a encarnação do Filho eterno de Deus, um ministério das três Pessoas da Trindade. Na encarnação atuam Pai, Filho e Espírito Santo. A glória atribuída a Jesus é glória ao Deus Trino.

No verso epigrafado, o apóstolo começa a tratar, clara, explícita e objetivamente, do problema. Uma coisa curiosa é que, antes de entrar diretamente na questão, Paulo mostra sua própria reação diante da tendência apóstata daquelas igrejas. É assustador observar a inclinação à apostasia de muitos chamados crentes, e até, de denominações inteiras. O desvio de alguém que consideramos irmão sempre nos causará profundo impacto. Isso pode se dar de forma muito rápida. Paulo se mostrou atônito diante da rapidez com que as igrejas da Galácia estavam abandonando o evangelho.

A questão da apostasia sempre foi algo de difícil compreensão, especialmente para aqueles que têm uma boa teologia, que compreendem com correção as Escrituras. Para os que torcem o ensinamento bíblico, vivendo a vertigem e a insegurança de uma fé nômade e passageira, que vai e vem, que acreditam que a fé verdadeira se comporta assim, que creem que o homem tem poder de ir até Deus e depois abandoná-lo seguidamente, que o Senhor fica na dependência do homem para saber quem são os seus escolhidos, esses simplesmente compreenderão a apostasia como um desses movimentos do homem autônomo diante de um deus passivo e contemplativo. No entanto, quem entende corretamente a doutrina bíblica, sabe que existe a predestinação ocorrida não na história, porém, antes que houvesse mundo, não como presciência, como se o Senhor simplesmente observasse aqueles que haveria de querê-lo. Reconhecem que se trata de escolha real e soberana, ocorrida antes na eternidade anterior à criação de todas as coisas.

Dessa forma, há alguma dificuldade para o intelecto humano: como alguém que foi escolhido pode simplesmente se evadir, pode abandonar o Senhor? A única resposta a isso é: não pode! A apostasia, que podemos chamar de completa, acontecerá apenas com falsos irmãos, pessoas geralmente sinceras enganadas, que acham que creem, mesmo não vendo qualquer transformação definitiva em suas vidas, ainda que não percebam em si o necessário apego a Deus e sua Palavra. Assim, porque vêm à igreja com alguma frequência, porque leem a Bíblia esporadicamente, acham que conhecem verdadeiramente o Senhor. São pessoas que exercem alguma modalidade de fé aparente, fé temporária, suficiente para alcançar algumas bênçãos do Senhor no ambiente estrito de sua graça comum. No entanto, nunca foram convertidas. Essencialmente, a apostasia se define como a reação de alguém que se autointitula crente, diante da heresia, assimilando ensino mentiroso e errado. É alguém que sempre foi reconhecido como crente, pode até mesmo ser um líder de igreja. Como tal pessoa reage diante do engano?

A questão é que não consideramos o poder da fé. A definição de fé: “a certeza das coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1), embora tenha como objetivo definir a fé verdadeira, descreve também todo tipo de fé. Crer é aceitar como verdade coisas que não podem ser comprovadas em laboratório, não empíricas. Dizendo isso de outra maneira, é crer em algo intangível, sobrenatural. Quando um pagão professa sua fé em seus deuses, trata-se de algo real, experimental para ele, que o afeta profundamente, podendo mesmo transformar seu comportamento. Não conduz à salvação, tampouco agrada ao Senhor. Mas refere-se a algo real. Falar de sua realidade não significa dizer que é genuína ou verdadeira diante de Deus. Sua existência pode ser comprovada por seus efeitos. Homens, movidos por suas crenças pagãs, foram capazes de grandes coisas e sacrifícios, mesmo entregar-se à morte.

Toda religião diferente daquela que é afirmada nas Escrituras é religião humana, feita por homens para a glória dos homens. Você não se torna o que você adora. O homem natural adora aquilo que ele mesmo é! Toda religião humana, todo ídolo, são projeções do próprio pecador, que visam alcançar os anseios do coração desassistido da graça. Não é difícil que alguém transforme a pura e genuína religião cristã a degenerando em religião humana, que busca a satisfação e a glória de homens, roubando de Deus aquilo que só ele é digno de receber. Os fariseus da época de Jesus são um bom exemplo disso. É assim que, dentro das igrejas, uma fé humana pode ser confundida com a verdadeira, a ponto de o joio ser virtualmente impossível de se distinguir do trigo.

Reparemos nesta importante verdade: desde o Éden, a vida com Deus se define como a centralidade na verdade. Já a mentira foi o torcer o princípio verdadeiro, dando-lhe novos formatos, outros contornos. O que trouxe o pecado ao mundo, o que abriu as portas deste mundo para o erro e a morte, foi o anúncio de uma heresia, a corrupção da verdade de Deus, com o claro objetivo de ludibriar Adão. Todo pecado está ligado à deformação da verdade. Toda transgressão clama por ser legitimada. O pecado não quer ser reconhecido como erro, mas como algo legítimo. Quando olhamos para nossa sociedade, nunca vemos o discurso: “sabemos que isso é errado, mas é o que nós queremos”. Jamais! Muito pelo contrário! As práticas mais perversas e sórdidas, pecados na área moral e sexual são legitimados, afirmados como relacionamentos verdadeiros, aprovados e até virtuosos. A pior forma de pecado não é o do erro reconhecido, assumido, mas aquele que é legitimado. Esta é a grande batalha espiritual: uma batalha pela verdade! O que é verdade! Todo pecado é uma tentativa de engano, de corrupção da única verdade.

Então, compreendamos isto: a apostasia é a assimilação do engano, aceitar como verdade a corrupção da verdade. Nesse sentido, notemos que “apóstata” não é apenas aquele que se desvia por abraçar uma heresia, um ensinamento errado, uma falsa doutrina, como se fosse bíblica. Também é apóstata aquele que abandona a igreja para abraçar abertamente o mundo e seus pecados. Tanto o que recebe e abraça a mentira como se fosse ensinamento correto, como aquele que simplesmente abandona a igreja e se atira nos braços de satanás no mundo, ambos são apóstatas, ambos foram iludidos com a mentira do diabo. Por isso, um crente nunca jamais apostatará, pois tem a fé verdadeira. 

Voltemos à questão da reação do chamado “crente” diante do engano do pecado que, como acabamos de ver, pode ocorrer no formato de heresias, de ensinamentos errados, bem como, na forma do mundanismo escancarado, entregando-se ao diabo no mundo. Se se trata de um falso crente, alguém que não tem a fé verdadeira, mas apenas uma modalidade de fé temporária, uma crença aparente, quando exposto ao oferecimento ardiloso do engano, pode realmente reconhecer nisso aquilo que deve fazer. Pode abraçar com todas as forças o pecado da heresia ou do mundanismo, achando que isso é o certo para ele. Nesse caso, reconhecerá no engano a proposta de vida que ele deve assumir. O engano passa a ser a sua verdade! É algo que fala melhor ao seu coração. Trata-se de práticas e/ou ensinamentos que lhe atraem mais, que lhe dão mais prazer e satisfação. Toda apostasia é a legitimação do erro, o sucesso do pecado em enganar aqueles que o abraçam. Dessa forma, aquele que possui uma fé temporária, que não é crente de fato, pode passar por esse processo, algo que pode ser extremamente rápido, especialmente nesse caso, por ser um não-crente.

Precisamos diferenciar a fé verdadeira da temporária, entendendo que a fé verdadeira ocorre quando Deus vem ao homem e lhe infunde uma nova natureza, habilitando-o a crer. Já a fé temporária é o esforço meramente humano, muitas vezes sincero, de se aproximar de Deus, para usá-lo para a consolidação das vontades humanas. Que fique bem claro que a apostasia completa e definitiva ocorre apenas com o ímpio que achava que era convertido, ou até mesmo, ainda acha que é, embora não seja realmente. A apostasia definitiva se dá quando o processo do engano se completa na vida de um determinado sujeito ou de uma igreja, isto é, quando alguém que é conhecido como “crente” ou uma instituição que se entende como “igreja”, abraça e assume o engano do pecado como sendo a mais pura expressão da verdade. O pecado foi legitimado; o erro foi assumido como certo; a heresia foi absorvida como verdade bíblica. Ame ao Senhor de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Essa é a vivência da verdadeira fé. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).

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