O valor que damos a Cristo e à ressurreição
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pe 1.3)
Quando pensamos no impacto do cristianismo no mundo romano do primeiro século, é importante lembrarmos de como eram as religiões da época. Em geral, as religiões propostas pelos homens, como têm sempre o mesmo objetivo, qual seja: manipular a suposta divindade para que faça aquilo que o ser-humano deseja, projetam deuses mais ou menos semelhantes. Um exercício interessante seria comparar os panteões greco-romano, nórdico e eslavo. Encontraremos deuses semelhantes: um maioral ou pai de todos, um filho mais poderoso, e assim por diante. Poderíamos, por exemplo, ladear Zeus, Odin e Rod, como também Hércules, Thor e Perun. Certamente, não são exatamente iguais, mas a estrutura que rege tais panteões aproxima-se notavelmente. São estruturas muito próximas a dos deuses cananeus e das divindades dos demais povos listados no Antigo Testamento. Outro fator comum é a ênfase na fertilidade. Certamente, também a teogonia, a concepção de mundo, encontram alguma similaridade.
É certo que a conversão se dá pelo toque do Espírito Santo. No entanto, o impacto causado pelo cristianismo nascente não foi apenas nos eleitos, mas em todo o mundo! Por que isso se deu? Exatamente devido àquilo que o cristianismo anuncia: Deus se encarnou, morreu e ressuscitou pelos seus. Isso jamais foi anunciado nas demais religiões. Em geral, os homens têm que aprender a domar divindades iradas a fim de canalizar o poder delas em benefício dos mortais, no mínimo, evitando que esses seres poderosos os destruam.
Contudo, o anúncio de Deus nascendo como homem em uma manjedoura, vivendo humildemente entre os seres-humanos, entregando-se nas mãos de pecadores para ser morto em favor dos seus algozes? Isso era tudo o que as religiões da época não eram: amor, bondade, misericórdia, compaixão, perdão. Como se não bastasse a multiplicidade de deuses, todos os panteões mostravam deuses gananciosos, traidores, enganadores, cobiçosos. Ao invés de serem “super-homens” idealizados como vemos hoje nos super-heróis, eram “super-homens” que também eram “super” em todos os pecados conhecidos.
No Brasil o problema foi outro. Atribui-se ao padre jesuíta José de Anchieta a identificação do Deus bíblico a Tupã, o deus do trovão dos tupis. Todavia, há uma peculiaridade nas religiões ameríndias que significou grande dificuldade na catequização: seus deuses são impessoais, mais relativos a forças da natureza do que a seres com personalidade. Além disso, os deuses não eram associados à bondade e à perfeição, como é o Deus verdadeiro. O próprio Tupã também era associado ao mal, quando, por exemplo, um raio caía na floresta e “colocava fogo na mata”. Exemplos morais dos ameríndios não estavam, portanto, em seus deuses, mas em seus antepassados, seres mitológicos associados aos seus mitos. Como já nascemos em uma sociedade modelada pelo cristianismo e com igrejas cristãs em cada esquina, não sofremos o mesmo impacto dos homens do primeiro século, quando ouviam a verdade sobre Jesus. Aparentemente, a mensagem do sacrifício do Cristo, Filho de Deus, em favor de pecadores, já foi desgastada pelo tempo na consciência da sociedade ocidental. Os pecados têm sido transformados em estilos de vida, opções, ou, até mesmo, em coisas naturais que devem ser aceitas.
Uma vez que se perde a noção de pecado, ainda que em sua forma secular do “certo e errado”, o sacrifício de Cristo tem solapada a sua importância no intelecto humano, perde seu sentido. É fato que a mensagem do evangelho também foi desgastada na igreja atual. Talvez não haja mostra mais contundente do que a vulgaridade e o descaso com o qual o crente olha para a Ceia do Senhor em nossos dias. O sacramento que rememora de forma vívida o impensável jamais imaginado: a encarnação de Deus para morrer e ressuscitar por seu povo, é prontamente desprezada por qualquer coisa que seja mais atraente para o chamado crente. Ele deixa de participar da Ceia porque foi passear, porque estava indisposto, por qualquer questão familiar ou pessoal, entendendo que tem, realmente, justificativa para isso. Assim como a não-observância da guarda do Dia do Senhor é mostra de que o crente já não dá a importância devida à comunhão com Cristo, também a perda da importância do sacramento é evidência de afastamento de Deus e da centralidade humana.
O que nos chama a atenção nas palavras de Pedro é que já inaugura sua epístola tomado de gratidão e louvor pela obra de Cristo, algo que foi substituído em nossos dias pelo carro novo, pela promoção e pela cura. Portanto, notemos como as palavras de Pedro ecoam como a clara mostra da grande gratidão que sentia por Deus. Contudo, o que deve ser observado é o que nutria essa imensa dívida que percebia: a esperança da ressurreição. Ele inicia o verso bendizendo ao Senhor, que é, na verdade, a exaltação dos grandes, inigualáveis e memoráveis atos de Deus para a salvação dos eleitos.
No entanto, com isso ele também expressa uma confissão de fé. Pedro refere-se a Deus, não a um deus qualquer. Defini-o como o Pai do Senhor Jesus Cristo, indicando aí a divindade do Messias e a ligação às promessas do Antigo Testamento. Primeiramente, a filiação divina de Jesus Cristo pode ser entendida como existência da mesma essência entre Pai e Filho. Jesus Cristo é filho como nós somos em sua humanidade. Contudo, em sua divindade, é Filho de forma que só ele é. É o eternamente gerado do Pai, aquele que procede do Pai desde que o Pai existe, isto é, desde toda a eternidade anterior à Criação de todas as coisas. Portanto, Pedro claramente integra Jesus Cristo ao ser plural de Deus. Sabemos que o Messias é a Segunda Pessoa da Trindade, que juntamente com o Espírito Santo, compõem o ser Triúno de Deus.
A confissão de fé expressa pelo apóstolo também fala da comunidade e da unidade dos salvos. Ele não constrói sua fala no singular. Enuncia a verdade no plural, agregando todos os crentes à condição de servos de Cristo. Jesus é chamado de “nosso Senhor”. Esta é uma forma de nivelar a todos perante o Messias. É interessante que ele não é chamado de “Salvador”. Também curioso é que o verso esteja falando da salvação, mas quem é louvado por isso é o Pai. O Filho é apresentado no verso como agente da redenção. Pedro pode se expressar desta forma, pois, realmente, a obra da salvação, assim como tudo o que Deus faz, é obra conjunta das Pessoas da Trindade no ser de Deus. Jesus, embora seja aquele que estritamente operou a salvação, foi enviado pelo Pai e conduzido em tudo pelo Espírito Santo que o revestiu já no batismo por João Batista. A igreja é vista como serva de Cristo. Tal nivelamento da condição de todos perante Cristo deve levar ao abandono de qualquer jactância, orgulho e senso de grandeza. A igreja é um lugar onde não deveria haver distinções. Todos são servos.
A confissão de fé petrina também expressa precioso conteúdo doutrinário quanto ao Salvador. Além de ser chamado de Senhor, ligando-o ao Deus que fez as promessas no Antigo Testamento, também é referido como “Jesus Cristo”. Ora, o Senhor não tinha como sobrenome “Cristo”. Esta palavra, que é o equivalente na língua grega à palavra hebraica “messias”, é usada para afirmar que aquele pregador que veio da Galileia, já referido Filho de Deus na Trindade, através de quem vários sinais foram feitos, dentre os quais a inigualável ressurreição, é o Messias prometido no Antigo Testamento. Afirma-se o cumprimento da promessa e o estabelecimento do reino. A presença do Cristo é prova de que o seu reino é presente e se expande no mundo através de sua principal agência que é a igreja. Depois de se referir ao Pai e ao Filho, Pedro exalta a misericórdia divina como o atributo de Deus que viabilizou a nossa redenção. Se o Pai não tivesse olhado com olhos misericordiosos para a terrível condição humana, nenhum descendente de Adão restaria.
Pedro afirma que foi pelo expediente da misericórdia que em Cristo o Pai nos regenerou. A partir de então, esperamos avidamente a ressurreição baseados, exatamente, no fato de Jesus Cristo já ter sido ressuscitado. Ele é a prova máxima e cabal de nossa própria redenção final. A certeza da ressurreição jamais deve abandonar a nossa mente. Se isso ocorrer completamente, desconfia-se da verdadeira conversão. A salvação é a ressurreição final. Se não olhamos fixamente para ela é porque fizemos de nossa vida com Deus simplesmente um instrumento facilitador da presente vida. Consideremos as preciosas palavras de Pedro e reflitamos sobre o que tem sido a nossa experiência de fé. Que os nossos olhos estejam cravados sempre em Deus e jamais se desviem para se fixar nas coisas desta terra. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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