A história se mostra difícil para alguns e brutal para outros. A dor da fome cria falta de perspectiva; os becos sem saída e arame farpado viram quase sinônimos; cemitério seca a alma e inunda os olhos de lágrimas.
Os salmistas de Israel poetizaram o sofrimento avassalador da fome, exílio, escravidão e má gestão de reis malvados. A poesia virou lamento de pessoas golpeadas:
Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? [Salmos 22. 2]
Desperta, Senhor! Por que dormes? Levanta-te! Não nos rejeites para sempre. Por que escondes o teu rosto e esqueces o nosso sofrimento? [Salmos 44.23]
Por que nos rejeitaste definitivamente, ó Deus? [Salmos 74.1]
Por que reténs a tua mão direita? Não fique de braços cruzados! [Salmos 74.11]
Por que as nações precisam dizer: Onde está o Deus deles? [Salmos 79.10]
Ó Esperança de Israel, tu que o salvas na hora da adversidade, por que te comportas como um estrangeiro na terra, ou como viajante que fica somente uma noite? [Jeremias 14.8]
Por que motivo então te esquecerias de nós? Por que haverias de desamparar-nos por tanto tempo? [Lamentações de Jeremias 5.20]
Esse desespero não visava converter Deus. A ideia de ganhar Deus para o lado do ulcerado, da enxovalhada, do consternado, não combina com o Deus que se identificou com o crucificado.
Deus não muda da indiferença para a compaixão só porque assim o povo implora. Não é possível que Deus se empenhe mais ou menos, dependendo da maneira como se pede. Eles expressavam a alma por sentirem os silêncios divinos. E só.
Fé eficaz, funcional, vale quando a doença regride, os ventos sopram a favor e a montanha sai do meio do caminho.
O que fazer quando o mal não regride? Logo surgem as vozes da culpa: “Acho que não orei o suficiente”. “Não me dediquei à oração o tanto que devia”. “Não fui tão santo quanto necessário”.
Na angústia sem solução deve restar a convicção de que somos amados, não porque as peças vão encaixar, mas devido ao amor unilateral que nunca exige contrapartida.
Uma benignidade incondicional nos acompanha pelo vale da sombra da morte e o nome dessa convicção é esperança.
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