O Perigo de "Saber" Sem Ler: Uma Crítica Pastoral à Geração dos Cinco Minutos
Por Kleiton Fonseca
Introdução: o impulso que substituiu a paciência
Há um tipo de ignorância que é inofensiva, porque sabe que é ignorância. E há outro tipo, muito mais perigoso, que se veste de conhecimento. É a esse segundo tipo que Salomão se referia quando escreveu: "O caminho do tolo é reto aos seus olhos, mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio" (Provérbios 12:15). O tolo bíblico não é, em primeiro lugar, alguém de baixa inteligência. É alguém que confia demais na sua própria impressão e de menos na instrução que vem de fora de si mesmo — seja ela a instrução de um mestre, de um livro ou, em última instância, da própria Escritura.
Vivemos hoje uma curiosa inversão epistemológica. Pessoas constroem convicções teológicas inteiras a partir de vídeos de cinco minutos, recortes de áudio e memes doutrinários, e a partir dali sentem-se aptas a sentenciar sistemas inteiros do pensamento cristão — atacando Calvino sem nunca terem aberto as Institutas, rejeitando Armínio sem saber que ele foi, primeiro, um pastor formado em Genebra que apenas mais tarde rompeu com a ortodoxia reformada de seu tempo. Falam de predestinação com fluência de bordão, mas hesitariam diante de uma pergunta simples: em que cidade Paulo começou sua primeira viagem missionária? Quem foi Onesíforo? João Batista é, para muitos, apenas um nome solto, sem rosto e sem função na economia da revelação.
Este artigo é uma crítica — pastoral, mas também histórico-gramatical — a essa cultura da impressão instantânea. E é, ao mesmo tempo, um convite: o convite bíblico e reformado ao estudo sério, paciente e humilde das Escrituras e da história da igreja.
1. O sintoma: intimidade com a opinião, estranheza com o texto
O quadro que percebemos descreve não é exagero retórico — é, infelizmente, observável em larga escala. Pessoas que dominam o vocabulário da controvérsia ("calvinista", "arminiano", "TULIP", "livre-arbítrio") sem dominar o conteúdo histórico ou exegético que sustenta esses termos.
Vale a pena, aqui, fazer justiça aos próprios nomes que são tão facilmente manuseados como rótulos.
João Calvino (1509–1564) não foi um teórico de gabinete, mas um pastor e exegeta que, fugindo da perseguição religiosa na França sob Francisco I, produziu nas Institutas da Religião Cristã — obra iniciada como um catecismo simples e expandida ao longo de cinco edições latinas — uma exposição sistemática que ele mesmo concebeu como um guia para leitores da Escritura, não como um substituto dela.A obra começou como um resumo conciso da fé, mas evoluiu para um extenso tratado em quatro volumes que abordava temas centrais como a natureza de Deus, a salvação e o governo da igreja. Calvino compunha simultaneamente catequese e apologética — instrução na doutrina cristã unida à defesa do ensino protestante diante das críticas de seu tempo. Quem reduz Calvino a "o homem da predestinação" desconhece que sua erudição abrangia desde os Pais da Igreja até escritores pagãos greco-latinos, e que seu compromisso fundamental era hermenêutico: a Escritura interpretada com inteligência e fé, nunca separando intelecto e espiritualidade.
Jacó Armínio (1560–1609), por sua vez, não foi um "inimigo externo" da fé reformada, mas um produto dela. Órfão na infância, criado sob a tutela de mentores ligados à própria tradição reformada holandesa, formou-se em Leiden — onde, segundo registros biográficos, foi influenciado por professores que já discordavam abertamente da doutrina calvinista da predestinação.Arminius estudou na Universidade de Leiden, onde encontrou debates teológicos significativos entre protestantes, particularmente a respeito de predestinação e livre-arbítrio. Ele chegou a defender publicamente a posição calvinista da predestinação contra um opositor, e foi precisamente nesse processo de defesa que começou a duvidar e mudou sua própria visão. Tornou-se professor em Leiden em 1603 e, após sua morte em 1609, seus seguidores produziram as Remonstrâncias, documento que sistematizou o que viria a ser chamado de arminianismo e que foi formalmente examinado — e rejeitado pela ortodoxia reformada — no Sínodo de Dort (1618–1619).
Quem cita esses dois nomes como rótulos de embate sem conhecer sequer o esqueleto biográfico de ambos não está fazendo teologia: está reciclando slogans. E a Escritura tem uma palavra dura para quem fala daquilo que não examinou: "Responder antes de ouvir não é sábio, é vergonhoso" (Provérbios 18:13).
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