“O preguiçoso morre desejando, porque as suas mãos recusam trabalhar” (Pv 21.25).
É curioso como alguns pecados são tidos pelo crente como praticamente inofensivos. Esse parece ser o caso da preguiça. Olha-se para ela como algo que causa danos muito pequenos, certamente, porque acredita-se que serão sempre limitados à própria pessoa que o comete. Trata-se de grande engano. A preguiça de alguém certamente afetará aqueles que estão ao seu redor, quer seja em um grupo de trabalho, em uma equipe esportiva, quer seja um pai na liderança e no papel de provedor de sua casa.
Outro fator que pode explicar esse reducionismo quanto ao perigo da preguiça é que estamos acostumados a pensar o mal como a consequência daquilo que se faz, não como algo que se deixa de fazer. Como a preguiça é eminentemente o não-fazer, parece-nos sempre algo menor diante dos atos. Todavia, a omissão é pecado, e exatamente por aquilo que acabamos de dizer, também não se reveste de muita malignidade diante dos homens.
A preguiça sempre imporá perdas que podem ser significativas. Por sua causa, pode ser que se perca grande oportunidade pessoal, familiar ou do grupo do qual se pertence, podendo ser até uma igreja local. É perigosa cilada menosprezar o poder destrutivo da preguiça. Talvez a própria figura do preguiçoso nos estimule a isso, alguém indolente, vagaroso, um tanto inativo, aparentemente inofensivo. Geralmente associamos o perigo a ação, não à falta dela. Porém, deixar de fazer algo importante em seu momento específico pode trazer danos significativos e irreparáveis.
É verdade que Salomão, no verso epigrafado, aplica a preguiça muito mais ao contexto pessoal. Nesse sentido, a preguiça é mãe de incontáveis frustrações. Uma frustração pode ser definida como um desejo não consumado, algo que muito se queria, mas que escapou como que “por entre os dedos”. No caso do crente, sua vida ocorre na perspectiva da glória de Deus, não andando à procura de seus próprios interesses.
Todavia, há muitas coisas que o Senhor planejou para ser glorificado em ocasiões e dádivas que nos trazem prazer e satisfação. Sem colocar suas vontades como prioridade, mas sempre as de Deus, haverá várias ocasiões em que o Senhor se agradará em nos agradar com algo que sabe estar ligado ao nosso coração, ou, simplesmente alguma coisa que nos beneficie. Tais coisas estão sempre associadas àquilo que fazemos. O favor gracioso do Senhor está sobre aqueles que trabalham em sua obra, que lhes são fiéis, buscando em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. O preguiçoso fracassará fragorosamente naquilo que devia fazer, em suas responsabilidades na igreja, na vida espiritual, no reino de forma geral, deixando de experimentar ricas bênçãos do Senhor em sua vida.
Nos psicológicos dias que vivemos, todo tipo de indisposição é logo identificado com alguma “doença”. Muitos dos pecados nas Escrituras já perderam esse status diante das ciências dos homens. O diabo tem convencido até mesmo crentes que eles nada podem, que não tem capacidade para realizar alguma coisa, que nasceram para ser passivos, quase vegetativos. Como resultado, há uma geração de chamados crentes sem disposição para realizar aquilo que precisam, acumulando frustração sobre frustração em sua existência: não evangelizaram quando tiveram a oportunidade, não assumiram responsabilidades na igreja quando lhes foi oferecida, não estudaram quando tiveram chance, não aproveitaram determinada oportunidade profissional quando lhe foi oferecida, não pouparam quando tinham possibilidade, simplesmente porque não quiseram, porque não foram capazes de dispor a própria vontade para isso.
A preguiça não é algo físico, mas espiritual, por isso, pecaminoso. É falta de domínio próprio, a negligência na responsabilidade de dispor e domar a própria vontade, modelá-la para o bem, para a realização das melhores coisas. Ao invés disso, prefere render-se à passividade. Ao fracasso do preguiçoso na vida para Deus, aplica-se o que foi dito pelo profeta: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente” (Jr 48.10).
Tenhamos cuidado com o pecado da preguiça! Cuidemos para não olhar para o preguiçoso, quer seja nós, quer seja o outro, como vítima de si mesmo. Não esvaziemos a culpa daquele que peca, nem legitimemos o pecado. Estejamos sempre dispostos a servir, a trabalhar, a glorificar ao Senhor em tudo o que fazemos, estruturando nossa vida na perspectiva da glória de Deus. Ao invés de frustração, exultaremos diante do Senhor por tantas oportunidades para o servir. Tenha um excelente dia na presença de Cristo
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