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quinta-feira, 30 de julho de 2026

 Onde há fé

“Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:6).

A fé existe devido à queda. O homem original não "cria". Ele tinha experiência direta com o Criador. Todos os dias, o único Deus verdadeiro vinha conversar com ele na viração do dia. Sabemos que "a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11:1). Ela impõe naturalmente a confiança naquilo que não se vê, não se ouve, não se toca.

Contudo, Adão antes da queda conversava e ouvia Deus todos os dias. Era conhecimento empírico, direto, factual, não exigindo fé. No entanto, quando o pecado entrou no mundo, houve separação entre Deus e os homens. A morte espiritual está exatamente nisto: o Espírito se ausentou do homem o exilando de Deus. Como resultado, a ideia e a existência de Deus se tornaram conceitos que podem ser apreendidos apenas pelo intelecto, uma experiência subjetiva, além dos limites de sua vivência comum restrita ao físico e material. 

Dizendo isso de outra maneira, uma vez que o homem desobedeceu ao Criador, morreu espiritualmente, passando a viver exclusivamente sua esfera de vida física, orgânica. Todavia, foi criado com duas essências: uma física e outra espiritual. Tendo morrido espiritualmente, sua existência espiritual não mais se lhe era natural, exigindo um esforço metafísico e epistemológico para se relacionar com tudo o que não era físico e tangível. 

Em outras palavras, tudo o que é espiritual tornou-se como que inadequado, incomum, ao homem caído. Mesmo sua latência para a religiosidade reflete majoritariamente as coisas físicas e materiais: deuses criados pelo próprio coração humano, que não passam de projeções deste mundo, de si mesmos, refletindo as formas criadas. Apenas o Deus verdadeiro, por ser "totalmente outro", diverso e diferente da Criação, não pode ser representado por imagens. Se fossem atribuídas formas criadas a Deus, ele seria reduzido à criatura. Eis o motivo da proibição de se fazer imagem de escultura do que está no céu. Por isso que, onde há fé, evidencia-se necessariamente o sobrenatural.

 A vida do crente é descrita como vida de fé. É interessante que com tal expressão geralmente se pense em uma vida de alienação, um tipo de existência na qual se despreza o físico e material como se pudéssemos existir apenas espiritualmente. Na verdade, não é isso, mas a integração novamente das coisas espirituais às materiais, o retorno à existência perdida na queda de Adão. Significa dizer que as duas essências do homem são novamente vividas, dando-lhe toda a extensão da realidade. Esta não é apenas física, mas espiritual também. É por ter morrido espiritualmente que o ser humano foca e se dedica exclusivamente às coisas materiais.

Contudo, uma vez nascido do Espírito, recebe uma nova natureza que tem como marca ser viva para Deus. Dessa forma, é habilitado a experimentar a completa existência, isto é, de corpo e de alma. Seus olhos são abertos para contemplar uma modalidade de existência para a qual ele havia sido criado, que lhe era própria, mas que deixou de ser natural na queda. A realidade se expande, passando a caminhar também espiritualmente. O crente é aquele que enxerga a realidade visível com os olhos e vive a realidade espiritual por fé.

A vida de fé é isto: viver o mundo físico calcado na experiência espiritual. O homem foi feito do pó da terra para viver no mundo material, mas habilitado para se relacionar com os seres espirituais, a começar do próprio Deus. O bem é moral, espiritual, assim como o mal. Dessa forma, é o conhecimento do bem, de todas as virtudes, que regram e dirigem os nossos atos no mundo físico. Eis a razão do porquê a experiência espiritual é o que rege e regulamenta nossa existência no mundo material.

 O texto epigrafado afirma a fé que Abraão teve, que lhe garantiu participar da justificação levada a cabo por Cristo. Mas creu em quê, uma vez que não havia nem mesmo uma palavra de revelação escrita em seu tempo? Na palavra revelada diretamente a ele, na promessa. Essa fé se torna visível, se materializa na obediência. O Autor aos Hebreus iguala a fé à obediência verdadeira. Quem crê obedece. Abraão, por crer na promessa, deixou sua terra e sua parentela e saiu sem um local determinado como destino. Também por crer na promessa de Deus, foi sacrificar seu filho Isaque, pois sabia que o Senhor o ressuscitaria. Realmente assim seria, pois era o filho da promessa.

Onde há fé, há obediência de fé, que nos leva a agir no cumprimento de tudo o que se espera de nós. É a fé naquilo que não se vê, a certeza no intangível, a realidade imaterial. Não raro, há uma espécie de vertigem, um frio na barriga, por nos lançarmos no imprevisível, no invisível, confiando cegamente em Deus e em sua Palavra. A fé não é a assimilação de um conceito, mas uma existência espiritual na qual somos dirigidos em tudo por verdades que não são compreendidas ou limitadas pelo mundo físico. Expanda seu horizonte! Creia realmente, obedeça mesmo contrariamente àquilo que afirma o ímpio! Exista na realidade que vai além daquilo que seus olhos veem. Tenha um excelente dia na companhia de Cristo 

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