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quinta-feira, 30 de julho de 2026

VENTO

 Hoje à tarde, o Rio de Janeiro foi sacudido por ventos que chegaram perto dos 100 km/h. Da varanda do nosso apartamento vimos uma caixa d’água se desprender do topo de um edifício e ser arremessada pelo vento. A cena era assustadora.


Diante de acontecimentos assim, sempre surgem explicações apressadas. Há quem espiritualize tudo e diga que se trata de um juízo divino sobre a cidade por causa de seus pecados. A ciência aponta para outra direção: estamos colhendo as consequências da forma como tratamos o planeta. O aquecimento global intensifica eventos extremos, e a previsão de um super El Niño apenas reforça que esse cenário tende a se agravar.


Sem recorrer a interpretações simplistas, lembro-me de um texto bíblico: “Deus faz dos ventos os seus mensageiros.” Se os ventos trazem uma mensagem, talvez devêssemos nos perguntar qual é ela.


Na Odisseia, Homero conta que o rei Éolo confiou a Odisseu um saco contendo os ventos. Advertidos a não abri-lo, seus companheiros, dominados pela desconfiança e pela ganância, imaginaram que Odisseu escondia um tesouro. Abriram o saco, e os ventos escaparam, lançando a embarcação novamente ao caos.


O mito, de certo modo, tornou-se realidade. Também nós abrimos o saco dos ventos. Não por curiosidade, mas pela ganância. Em nome do lucro imediato, devastamos florestas, aquecemos a atmosfera, alteramos o equilíbrio climático e agora nos surpreendemos com a violência daquilo que nós mesmos desencadeamos.


Não, não é o fim do mundo. Tampouco é o Apocalipse.


É a criação depondo contra a nossa irresponsabilidade diante daquele a quem, segundo o Evangelho, até os ventos e o mar obedecem.


Essa ventania não é um castigo. É um aviso.


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