Rubem Alves escreveu que Deus não é pássaro que prendemos em reds, mas a rede onde nos deitamos.
Concordo. Deus é a rede que oferece repouso; em que encontramos fôlego para a aventura de viver.
Quanto mais a religião se vê fragilizada mais se agarra ao conjunto de discursos que forjam sua identidade.
Doutrina ganha, assim, o status de verdade inquestionável.
O Mistério sobre Deus fica, portanto, domesticado pelos dogmas escritos e protegidos por quem se pretende mestre exaustivo de Deus.
Daí, quando vida e dogma colidem, a teologia ganha sempre e um feixe de arrazoamentos tem primazia acima de qualquer compromisso com a vida.
Ao invés de colocar-se como defensora da vida, a religião passa concentrar seus esforços em proteger o conjunto de suas verdade.
Eis um motivo porque algumas igrejas criam departamentos apologéticos - o edifício conceitual que lutam por levantar depende de afirmações inabaláveis. Eis uma definição de dogmatismo.
Uma premissa do fundamentalismo é que existam verdades absolutas que transcendem cultura, tempo e qualquer circunstância.
Em todo o fundamentalismo, para fazer suas afirmações valerem, relativiza-se a vida. Eis mais um motivo das afirmações categóricas da doutrina serem defendidas a unhas e dentes. Protegidas a qualquer custo, as verdades institucionais ficam mais preciosas que pessoas.
Se a existência se mostrar bruta, e o enunciado teológico não der conta de explicar o sofrimento, algumas frases passam a ser, piedosamente, defendidas, mesmo vazias.
“Mesmo em Auschwitz Deus estava no controle e nada escapou à sua vontade”.
Se guerras e genocídios cobrarem explicação, o fundamentalismo não se importa em ir contra o bom senso.
Fundamentalistas mal se importam em jogar os horrores da fome, da miséria e da morte prematura de crianças no colo de Deus.
Reagimos ao sofrimento com qual ideia de Deus? Na hora em que for necessário debulhar o pior infortúnio, melhor falar da rede onde onde repousamos a recitar os dogmas frios que animam os santarrões.
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