Chega um tempo em que se deve engolir, as páginas amargas da profecia; e partilhar, com Jeremias, a masmorra da dignidade ao invés das benesses do palácio.
Chega um tempo em que não se deve evitar o clamor do Nazareno: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Ou, talvez, perguntar com Castro Alves: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!...”.
Os dois gritaram como representantes, e em nome, dos destituídos, dos exilados e das achincalhadas.
Chega um tempo em que, depois de sobejarem horrores se deve buscar refúgio na poesia e desistir das respostas prontas.
Há de se abrir mão de fazer da competência uma meta e vestir o gibão de Manoel de Barros que soube se abandonar na “desutilidade poética”.
Chega um tempo que apesar de tudo , tudo, a gente ainda quer dançar dançar na chuva, pois, sem vergonha de perder o compasso, vamos para cima dos obstáculos, dizendo: apesar de tudo viver é muito bom.
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