“São mais desejáveis do que o ouro, mais do que muito ouro depurado” (Sl 19.10).
É curiosa a forma como Davi se refere aos juízos de Deus. Notemos que, de uma forma geral, o salmista claramente faz referência à Lei em todas as suas nuanças, quais sejam: lei, testemunho, preceito, mandamento, temor e juízos. Que fique claro que, objetivamente, refere-se à Lei também utilizando o último termo listado: “juízos”. No verso anterior “juízos” indica, na verdade, “sentenças”, “vereditos”. Dessa forma, a Lei representa para nós em certo sentido a nossa própria condenação. Todos nós, diante da Lei, estamos condenados! Todo descendente de Adão, por causa da queda, já nasce condenado, sentenciado à condenação eterna.
Esse é o status de todo homem caído, todo ser humano natural. O próprio Cristo, certa vez, afirmou: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18). Reparemos nessa afirmação: “já está julgado”. Se o pecador não crê em Cristo para sua justificação e redenção, ele já está julgado! Na verdade, a negativa à salvação implica dupla condenação: a) a da Lei; b) a opção pelo pecado reafirmada na rejeição ao próprio oferecimento da salvação. É como alguém que não apenas comete um crime, mas desdenha e zomba da possibilidade de não ser condenado.
De qualquer forma, nosso ponto é a condição geral de todo homem, conforme afirma nosso Senhor: já está condenado! Referindo-se a esse papel da Lei, seria, no mínimo, curioso ver Davi chamá-la de “desejável”. Entendamos que essa palavra no hebraico admite outros sentidos. O termo aqui traduzido como “desejável” tem uma gama de sentidos, tais como: “belos, grandiosos, deleitáveis, desejáveis, prazerosos, preciosos”. Possivelmente, os tradutores de nossa magnífica versão Revista e Atualiza, 2ª edição, optaram pelo sentido “desejáveis” devido à parte “b” do verso, que fala de algo doce como o mel e o destilar dos favos. Mas, reparem que, à luz da própria afirmação na qual o termo ocorre, que compara os “juízos” ao “ouro”, a ideia de “valiosos” ou “preciosos” seria mais apropriada. Há aqui, sim, uma distinção de valor! Os mandamentos de Deus estão colocados diante das maiores riquezas do mundo, afirmados como muito mais preciosos do que a soma de todas elas. Assim, são mais preciosos, mais do que o ouro depurado.
Davi destila sabedoria do Santo Espírito de Deus, construindo habilmente sua comparação. Ele utiliza dois termos para destacar o valor daquilo ao que a Lei é comparada. Quando diz: “são mais preciosos do que o ouro”, utiliza um termo hebraico mais geral ou genérico, por assim dizer, que pode indicar, até mesmo, a riqueza de forma geral. No entanto, ao continuar sua argumentação, fez uso de outro termo, que se aplica diretamente ao ouro refinado. Dessa forma, sua comparação e plenificada! É como se usasse um superlativo para destacar a preciosidade daquilo que indica. Dessa forma, temos a seguinte intensificação: os juízos do Senhor não muito mais valiosos do que as maiores riquezas dos homens, mais do que o ouro refinado. E diz exatamente isso: “mais preciosos!” Fortalece o sentido fazendo uso de um advérbio de intensidade. Com isso, é como se colocasse os juízos do Senhor em um outro nível de valor e importância. É como se dissesse que nada se compara em valor e importância aos juízos revelados por Deus.
Aí está o valor supremo das Escrituras, não apenas da Lei, mas de toda revelação escrita. No entanto, em que podemos reconhecer de valor naquilo que nos condena? Que tipo de prazer ou satisfação há diante daquilo que nos sentencia? Percebemos, então, o valor supremo da Lei, de certa forma, de toda Palavra de Deus! Diante da pura e cristalina vontade revelada de Deus, percebemos o que somos! Todo condenado está humilhado, sem direto de fazer o que quer, sem liberdade para realizar sua própria vontade.
Nesse sentido, as ideias de “escravidão” e de “prisão” se aproximam bastante. Ambos comungam o significado de privação de liberdade e do impedimento do exercício da vontade. De novo: o que pode haver de bom nisso? Especificamente na condenação, na escravidão, nada há de positivo, prazeroso ou valioso. No entanto, o valor e importância estão na revelação disto à nossa alma. A importância dos juízos do Senhor para o pecador está em exatamente fazer cair as máscaras, concedendo-nos a capacidade de nos enxergar como realmente somos, o que verdadeiramente somos: perdidos, pecadores, incapazes de fazer algo por si mesmos, algo que, de alguma forma, nos ajude a sair dessa situação.
Assim, a Lei mostra e sempre nos lembrará da necessidade de Cristo. Colocando isso de outra forma, temos que ter muito cuidado para não exagerar os efeitos da graça. Na história da igreja, mesmo ligado ao protestantismo, houve entendimentos errados sobre o resultado da graça na vida dos crentes, como se o salvo não fosse mais tido como “pecador” após a conversão. É como se disséssemos que o crente não mais peca após sua conversão, pois a graça de Cristo anula completamente o pecado.
Vejam o quanto esse entendimento é errado: uma coisa é dizer que todos os nossos pecados são perdoados na cruz de Cristo. Outra, que não são mais considerados pecados porque a graça de Cristo está em nossa vida. Os defensores desse erro afirmam a possibilidade de uma santidade plena, não porque não mais pecamos, mas porque, em função da graça, não somos mais considerados assim, como se a graça nos tirasse da condição de pecadores. Somos pecadores, mas redimidos! Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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