Os crentes são os verdadeiros filhos de Abraão
“Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão” (Gl 3.7).
Há aqui uma redundância proposital, deliberada, para mostrar que a popularização de um termo faz com que nos esqueçamos de sua verdade essencial. Ora, se utilizamos a palavra “crente”, já não especifica “aquele que crê”? Sem dúvida! No entanto, essa palavra já quase nada preserva de seu sentido original. Infelizmente, isso é uma constante na igreja de Cristo. Quando chamamos a Deus de Senhor, estamos mesmo nos colocando na condição de servos? Deveria ser isso! Hoje, quando usamos a palavra “servo” é praticamente um título honorífico nas igrejas, utilizado para destacar alguém, geralmente de forma exagerada. Todo crente deveria ser um servo, mas se perdeu de vista a necessidade de refletir se aquele a quem quer se chamar de servo de fato o é.
Da mesma forma, chamamos e nos referimos uns aos outros, no ambiente de igreja. É exatamente essa questão: quem é o crente hoje em dia? É meramente o que vai à igreja. Assim, nos acostumamos a dizer que alguém é crente por simplesmente estar na igreja, não porque realmente enxergamos evidências concretas de fé nele. É obvio o que vou dizer, mas é necessário: não existe crente sem fé! Não existe um crente que não crê! Entretanto, é impressionante como olhamos para a fé como se fosse um documento que recebemos, uma coisa, um objeto que colocamos em algum lugar, não algo vivo e dinâmico, transformador e poderoso, que muda radicalmente a vida de um pecador, que lhe dá experiências e forças indizíveis. Nossa fé parece ficar largada, abandonada em nosso coração, como se não precisasse ser cuidada, alimentada, zelada, protegida. Ela simplesmente está lá.
Todavia, Paulo mostra que nós, como crentes, procedemos da fé. A ideia que Paulo transmite é gerativa. Somos filhos da fé, gerados por ela, nova vida em Cristo. No próprio texto isso fica claro. Olhando para o texto grego, percebemos que a expressão “os da fé” é um ablativo, o que destaca a ideia de origem, procedência. Há uma preposição utilizada aqui que indica exatamente isso, sendo traduzida como: “a partir de”. Paulo está dizendo que nós “procedemos da fé”. Agora, notemos a expressão que segue: “filhos de Abraão”. O verso está centrado na ideia de geração, de filiação. Somos filhos da fé, gerados na fé e por ela. Vamos estender essa ideia quando analisarmos a última afirmação.
Esta é uma verdade fundamental para nossa vida como crentes! Somos crentes, gerados por fé, na fé em Jesus Cristo. Somos “da fé”, como Paulo diz. É isto que nos caracteriza: uma fé transformadora, a poderosa fé que nos modela à silhueta de Cristo. É o possuir o Espírito de Deus! Não nos esqueçamos que Paulo faz exatamente essa associação, de sermos crentes com o possuirmos o Espírito Santo: “recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (v. 2). Crer significa ter o Espírito Santo! É poder que transforma e capacita a servir. Não esvazie o conteúdo dessa palavra! Você é um crente! Você é o que crê! Você é capaz de erguer um monte e comandá-lo ao mar. Não diminua aquilo que você é! Deus te fez assim para glorificá-lo. Esse é o maior anseio do crente.
Os hebreus certamente cometeram vários erros de compreensão que resultaram o judaísmo que encontramos na época de Jesus e no Novo Testamento. Um dos mais terríveis erros foi terem confundido descendência de Abraão com salvação. Ser um descendente de Abraão era considerado em si a comprovação de ser povo de Deus. Isso é muito grave, pois afronta não apenas os fatos, mas a própria Escritura. Ora, os judeus sabiam que houve várias ocasiões nas quais o povo se desviou, andou após outros deuses, foi para o exílio. Claramente muitos descendentes de Abraão se perderam no Antigo Testamento. Isso era fato conhecido. Então, o que as Escrituras afirmam como único meio de salvação? A fé! Foi isso que o próprio Abraão teve e lhe trouxe a justiça em um tempo anterior à Lei de Moisés.
Por isso, não era a descendência de Abraão o determinante, mas a fé. Igualmente, essa é a razão de muitos gentios terem sido salvos no período do Antigo Testamento. Também por isso, no caso, a ausência da fé, que levou muitos hebreus à perdição. Retomamos, então, o sentido gerativo que destacamos na exposição da afirmação anterior, que dissemos que retornaríamos a ela. A procedência da fé, ligada à afirmação de que gera os verdadeiros filhos de Abraão, constitui uma descendência espiritual, não física, sanguínea ou genética. É como se Paulo dissesse que os verdadeiros filhos de Abraão são os que receberam a sua mesma fé, isto é, os que descendem espiritualmente daquele que creu nas promessas. Hoje somos filhos de Abraão por sermos descendentes da mesma fé, procedentes e gerados na mesma fé que teve Abraão, bem como, todos os crentes do Antigo Testamento.
Essa é a razão de Paulo ter podido fazer a sobreposição do Novo ao Antigo Testamento, destacando a mesma realidade de fé. O apóstolo vai destacar a mesma genealogia de fé, uma descendência espiritual quando diz, na Carta aos Romanos:
E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa” (Rm 9.6-8).
Paulo diz explicitamente aqui que nem todo israelita era de fato um israelita; descendentes de Abraão não são os da carne, mas os filhos da promessa, os que creem. Estabelece-se uma espécie de descendência espiritual, uma linhagem espiritual dos eleitos de Deus, formada de representantes de todos os povos. Esse é o povo, a família de Deus da qual pertencemos. Nós, os crentes de todas as épocas, do Antigo e do Novo Testamento, somos o verdadeiro Israel de Deus, os detentores da promessa que é Cristo. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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