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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

VEZES

 Caminhei algumas vezes pela vereda da sombra da morte. 

Andar em caminhos escuros deixa a gente com vontade de chorar.

Ultimamente aumentaram meu lamentos. 

Qualquer tolice dispara algum gatilho e choro baixinho.


Veredas escuras causam insônia e pedem terapia. Perdi a vaidade religiosa e procurei um terapeuta; vi que necessitava de um ambiente desprovido de culpas para desabafar alguns detalhes que espetavam a minha alma. 


Certo dia, comecei a sessão assim: – Doutor, quero que o mundo pare, preciso descer. Meu psicólogo coçou o cavanhaque e sussurrou, quase inaudível: — Não precisa parar o mundo todo. Por que não parar apenas algumas coisas e descer delas?


Que lição! Eu precisava parar só alguns carrosséis e descer deles. E antes que a minha máquina pifasse, comecei a puxar alguns freios. 


Me dexonerei de ambientes asfixiantes. 

Rasguei gazes mal cheirosas que escondiam ressentimentos mal cuidados. 

Cuidei de cicatrizar feridas emocionais. 

Bati o pó da sandália não como vingança, mas para ser livre de quem não queria carregar no colo.

Conjuguei o verbo agradecer.


Entre choros miúdos Insisto em joeirar poesia na literatura e filosofia. 

Rabisco alguma teopoética que inspire beleza. 

Busco serenidade para perfumar minha escrita. 


Hoje considero melhor ser santo que herói.


Deixo de lado o receio de repetir o chavão: “hoje é o primeiro dia do resto de minha vida”. 


Ficou tarde demais para desistir de espraiar as asas e tentar novos voos. Do alto, sobranceiro, conseguirei identifica o que pesa desnecessariamente.


Vivo e revivo alvoradas desde o vale da sombra da morte, Rainer Maria Rilke:


“A minha vida, eu a vivo em círculos crescentes

sobre as coisas, alto no ar

Não completarei o último, provavelmente, 

Mesmo assim, irei tentar.


Giro à volta de Deus, a torre das idades, 

e giro há milênios, tantos...

Não sei ainda o que sou, falcão, tempestade

ou um grande, um grande canto”.


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