Caminhei algumas vezes pela vereda da sombra da morte.
Andar em caminhos escuros deixa a gente com vontade de chorar.
Ultimamente aumentaram meu lamentos.
Qualquer tolice dispara algum gatilho e choro baixinho.
Veredas escuras causam insônia e pedem terapia. Perdi a vaidade religiosa e procurei um terapeuta; vi que necessitava de um ambiente desprovido de culpas para desabafar alguns detalhes que espetavam a minha alma.
Certo dia, comecei a sessão assim: – Doutor, quero que o mundo pare, preciso descer. Meu psicólogo coçou o cavanhaque e sussurrou, quase inaudível: — Não precisa parar o mundo todo. Por que não parar apenas algumas coisas e descer delas?
Que lição! Eu precisava parar só alguns carrosséis e descer deles. E antes que a minha máquina pifasse, comecei a puxar alguns freios.
Me dexonerei de ambientes asfixiantes.
Rasguei gazes mal cheirosas que escondiam ressentimentos mal cuidados.
Cuidei de cicatrizar feridas emocionais.
Bati o pó da sandália não como vingança, mas para ser livre de quem não queria carregar no colo.
Conjuguei o verbo agradecer.
Entre choros miúdos Insisto em joeirar poesia na literatura e filosofia.
Rabisco alguma teopoética que inspire beleza.
Busco serenidade para perfumar minha escrita.
Hoje considero melhor ser santo que herói.
Deixo de lado o receio de repetir o chavão: “hoje é o primeiro dia do resto de minha vida”.
Ficou tarde demais para desistir de espraiar as asas e tentar novos voos. Do alto, sobranceiro, conseguirei identifica o que pesa desnecessariamente.
Vivo e revivo alvoradas desde o vale da sombra da morte, Rainer Maria Rilke:
“A minha vida, eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar
Não completarei o último, provavelmente,
Mesmo assim, irei tentar.
Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos...
Não sei ainda o que sou, falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto”.
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