Há ainda uma distorção sutil e muito perigosa: pensar na fé como espelho dos próprios desejos. Nesta visão, Deus é chamado a confirmar aquilo que o coração humano já decidiu querer. A oração deixa de ser entrega e passa a ser uma tentativa de obter validação divina para desejos ainda não tratados pela Palavra.
Tiago nos adverte: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” (Tg 4:3). O problema, neste caso, não está na oração em si, mas na motivação do coração. Podemos usar a linguagem espiritual para alimentar ambição, vaidade, luxúria, comparação, orgulho ou busca de controle. Podemos pedir coisas boas com motivações ruins. Podemos até dizer “pela fé”, quando, no fundo, estamos apenas tentando vestir nossos desejos com roupas religiosas.
Esta distorção também produz infantilidade espiritual. Quando Deus não realiza o que desejamos, o coração conclui rapidamente: Deus não me ouviu, Deus me abandonou, minha fé falhou. Mas a maturidade cristã não é formada quando Deus confirma todos os nossos planos. Ela cresce quando aprendemos a confiar nele também quando Ele corrige nossos caminhos, fecha portas, interrompe projetos e muda os rumos.
A fé bíblica não pergunta apenas: “Por que Deus não me deu o que eu queria?” Ela também pergunta: “O que Deus deseja ensinar, corrigir e aperfeiçoar em mim por meio desta circunstância?” Esta pergunta revela humildade, dependência e confiança. Há um abismo entre tentar usar Deus para realizar nossos sonhos e pedir que Deus molde o nosso coração segundo os seus propósitos.
Por isso, cuidado com aquilo que parece fé, mas é apenas desejo sem rendição. Cuidado com palavras bonitas, chavões espirituais e orações centradas no eu. A fé verdadeira não busca apenas que Deus aprove nossos planos; ela deseja conhecer, amar e obedecer ao Senhor.
Portanto, antes de orar e pedir, avalie os próprios desejos. Coloque o coração diante da Palavra. Peça ao Senhor discernimento, contentamento e quebrantamento. E guarde, com ambas as mãos, esta joia preciosa: a fé genuína no Senhor Jesus, que confia, descansa, obedece e se rende à vontade do Pai.
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