Gosto de observar as tendências e perceber por onde o mundo vai acenando. As mudanças acontecem quando entendemos para onde os ventos estão soprando com maior velocidade. Nunca é tarde quando ainda existe vida pedindo passagem. Muitas vezes a pessoa se acostuma tanto a uma direção que começa a acreditar que não pode mais mudar. Permanece em hábitos que cansam, em companhias que diminuem, em ideias que já não iluminam, em caminhos que perderam sentido. O medo chama isso de fidelidade, mas nem toda permanência é virtude. Há permanências que são apenas prisão disfarçada de costume. Mudar exige humildade. É preciso reconhecer que algo já não serve, que certa escolha não conduz mais, que uma versão antiga de nós precisa descansar. Isso pode assustar, porque mudar mexe com a imagem que criamos de nós mesmos e com a expectativa que os outros depositaram em nossa história. Mas Deus não nos condena a viver para sempre dentro de escolhas que já não produzem vida. Ele oferece recomeços silenciosos, portas pequenas, coragem gradual, pessoas novas, percepções mais maduras. Transformar-se não é negar o caminho percorrido. É honrar o aprendizado e seguir com mais verdade. Algumas mudanças começam por dentro, quase invisíveis. Uma decisão de cuidar melhor da alma. Um limite colocado com serenidade. Uma conversa que finalmente acontece. Uma distância necessária. Uma nova forma de olhar para a própria vida. Aos poucos, o coração percebe que não está tarde. Talvez não seja possível recuperar todo o tempo, mas é possível dar outro sentido ao tempo que permanece. A graça age nesse espaço entre o que fomos e o que ainda podemos nos tornar. E quando a pessoa se permite mudar sem se destruir pela culpa, descobre que a vida é mais ampla do que seus enganos, mais generosa do que seus atrasos e mais aberta do que suas antigas certezas.
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