“Revesti-vos de toda armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo” (Ef 6.11).
O apóstolo Paulo continua seu arrazoado quanto a esse assunto tão importante. Temos aqui não apenas o fechamento da epístola, o assunto final, mas uma matéria que não poderia faltar. Essa é a ideia! Paulo podia encerrar a sua carta aos efésios sem fazer menção pormenorizada a esse assunto. É interessante que ele não o faz em todas as epístolas. Com exceção da Carta aos Colossenses, que encontra vários paralelos com esta Epístola aos Efésios, não encontramos o tema do embate do crente com o diabo e os seus anjos como doutrina recorrente. Aqui, então, se descortina a nós algo magnífico da providência de Deus. O que levou o apóstolo a tratar desse assunto tão importante na Carta aos Efésios? Reparemos: se é um assunto tão vital, por que não está em todas as cartas? Há algum crente que não esteja em conflito constante com o reino das trevas?
A resposta está na Providência de Deus. O Senhor Espírito Santo foi concedendo aos apóstolos a oportunidade e o conhecimento a ser exposto em cada carta. Na liberdade de ação apostólica, Paulo tornou-se consciente da necessidade desse assunto e, assim, foi inspirado pelo Santo Espírito de Deus a desenvolvê-lo de forma inerrante e infalível. Tal assunto, por importante e vital que é, não pode ficar fora do cânon. Assim, chegou o momento de tratá-lo com vagar. Sendo as cartas de Paulo colecionadas na igreja do Novo Testamento como material canônico já na metade final do primeiro século, todas as igrejas passaram a ter acesso a esse material. Tal providência de Deus extrapola o público original, alcançando a nós hoje. As Escrituras são para nós o maior legado da Providência do Senhor.
O verso que expomos agora é, como não poderia deixar de ser, uma continuação do verso anterior. Podemos dizer que é uma espécie de ilustração do verso 10, mas com um acréscimo, uma progressão da argumentação. Esse tipo de arrazoado era comum entre os judeus. A literatura hebraica, o próprio Antigo Testamento, possui paralelismos sintéticos ou cumulativos, uma estrutura de pensamento que consiste em duas sentenças quase iguais, cujo sentido é expandido na segunda sentença. Assim, afirma-se o significado da primeira, mas com uma progressão de sentido na segunda afirmação. Juntando os versos 10 e 11, embora não se constituam exatamente em paralelismo, o método é o mesmo. O verso 11 parece repetir, afirmar a verdade do verso 10, mas expandindo-a. Assim, o verso 11 se inicia com uma ordem, um imperativo mostrando uma qualidade de ação que, na língua grega, é típica para ordens ou mandamentos.
Do que se trata essa ordem? Revesti-vos de toda a armadura de Deus! Ora, no verso 10, foi-nos exortado que buscássemos em Deus as forças dele: “sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder”. O vestir a armadura de Deus no verso 11 ilustra exatamente isso. Buscar no Senhor o fortalecimento agora será descrito, de forma prática, da ilustração da armadura, de cada parte dela. A progressão do raciocínio, quando comparamos os versos 10 e 11 é que agora se fala das ciladas que o diabo arma contra nós, o que explica a necessidade de buscarmos o fortalecimento em Deus, conforma mostra o verso 10. Reparemos que, em linha com o imperativo passivo do verso 10: “sede fortalecidos”, que expressa nossa busca de Deus para que ele nos fortaleça, temos no verso 11 a necessidade de nos revestirmos da armadura que o Senhor concede a nós. A mesma ênfase vista na necessidade do poder do Senhor expressa no verso 10, está aqui. Colocando isso de outra forma, temos que abrir mão de qualquer ideia de capacidade humana. O revestir, certamente, inclui a ideia de abandonar a vulnerabilidade, a fragilidade humana, para combater essa guerra com as armas e as forças de Deus.
Isso é tão belo quanto importante. O Senhor não nos manda à batalha despreparados ou desprovidos das armas necessárias. Na Segunda Guerra Mundial, o povo que mais foi sacrificado foi o russo. Boa parte desse trágico resultado foi devido a Stalin ordenar que seus homens atacassem os alemães e resistissem, mas muitos deles sem agasalhos suficientes para enfrentar o clima gelado, bem como, inteiramente desarmados. Não havia provisões para todos! Não havia suprimentos suficientes! Já imaginaram a crueldade que foi enviar soldados para uma guerra sem armas e sem as provisões necessárias? Isso foi genocídio! Todavia, o amor do Salvador se expressa em nos preparar devidamente para a guerra que temos com o reino das trevas, com todas as armas e com o devido suprimento. Na verdade, a beleza disso vai além, pois é o próprio Deus, o próprio Cristo é quem está conosco, junto conosco, e em nós, nesse combate.
Não devemos olhar para essa armadura como se fosse um mero objeto do qual nos vestimos. Vestir essa armadura e se revestir do próprio Deus é valer-se do próprio Cristo glorificado neste combate. A equivalência da armadura no verso 10 está no “ser fortalecido pelo Senhor e na força do seu poder”. Certamente, entendamos que isso não se dá como no conceito deísta. O deísmo acredita que Deus criou todas as coisas, deixou tudo funcionando, e abandonou o mundo criado. Usam a metáfora do grande relojoeiro, como se Deus fizesse um grande relógio, desse corda, e deixasse funcionando. Foi embora. Temos que entender que o poder de Deus é sempre a manifestação de sua presença. Deus não confere poder à distância, como se enviasse raios que nos energizam. De igual forma, o Senhor não utiliza objetos mágicos, cuja posse confere ao portador poderes sobrenaturais. O poder de Deus manifesta sempre a sua presença pessoal.
Talvez não haja texto que ilustre melhor isso que Atos 1, verso 8: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, na Judeia e Samaria e até os confins da terra”. O poder para lutar contra as trevas, pregando o evangelho nos quatro quadrantes do mundo vem pela presença do Espírito, derramado no Pentecoste. Deus não derramou seu poder; derramou sua presença! A era da plenitude do Espírito é a era da plenitude da sua presença, a máxima comunhão possível neste mundo caído. Portanto, quando temos o imperativo passivo: “sede fortalecidos”, o que está implícito aqui é o aprofundamento na comunhão com Deus, o desfrutar de intenso relacionamento com o Senhor. Esse é o poder e Deus em nós! Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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