Cada cabeça é uma sentença. A maioria de nós já ouviu essa frase em algum momento da vida. Ela faz referência à ideia de que cada indivíduo carrega dentro de si uma perspectiva própria de mundo, uma maneira singular de perceber, interpretar e reagir à realidade. Nós vemos o mundo através daquilo que somos. Nossas experiências, dores, desejos, cultura, linguagem, corpo e emoções moldam aquilo que entendemos como realidade.
E isso, por si só, não é um problema. É justamente dessa construção complexa que surgem identidade, personalidade, caráter, moral e consciência. Nós percebemos o mundo através do corpo e da mente: pelo toque, pela visão, pelo cheiro, pelo som. Distinguimos aquilo que nos atrai daquilo que nos repele, o familiar do estranho, o que nos acolhe do que nos ameaça. A partir dessas experiências físicas e emocionais, construímos também perspectivas internas, simbólicas e subjetivas sobre a existência. Cada indivíduo se torna, assim, uma combinação singular de experiências, limitações, memórias e interpretações. Naturalmente, o mundo só pode ter a aparência e o significado que conseguimos perceber a partir daquilo que somos.
O problema começa quando essa perspectiva pessoal deixa de ser apenas uma forma de interpretar o mundo e passa a exigir que o próprio mundo se adapte completamente a ela. Quando a percepção individual deixa de coexistir com a realidade compartilhada e tenta substituí-la. Vivemos uma época em que muitas pessoas já não suportam olhar para si mesmas com honestidade. Não suportam reconhecer os próprios limites, fragilidades, defeitos e contradições. Em vez disso, criam narrativas pessoais capazes de aliviar a dor de existir. Narrativas nas quais nunca são responsáveis pelo próprio sofrimento, onde o problema está sempre no outro, na sociedade, na cultura, na linguagem ou na própria realidade.
Criou-se uma mentalidade em que desejar algo passou a ser suficiente para reivindicá-lo como verdade pessoal. “Se eu sinto, então é real. Se eu quero, então devo ter.” E, a partir dessa lógica, espera-se que o mundo inteiro valide desejos individuais como se fossem leis universais. Mas a existência não funciona assim. A física não se curva à vontade humana. A biologia não se dobra ao desconforto psicológico. O tempo não muda porque desejamos. Existem limites objetivos na existência independentemente das nossas vontades. Porém, a sociedade moderna parece cada vez mais incapaz de aceitar essa ideia simples: o fato de desejarmos algo não transforma esse algo em realidade objetiva.
Talvez o sintoma mais grave desse processo seja o que aconteceu com a própria percepção coletiva do real. A realidade foi prostituída. Ela deixou de ser algo enfrentado com maturidade e passou a ser algo negociado conforme interesse, desejo e conveniência emocional. Tornou-se uma mercadoria subjetiva. Paga-se o preço ideológico, emocional ou social necessário, e a realidade passará a dizer exatamente aquilo que o indivíduo deseja ouvir. Ela se adapta, se molda, se vende, se entrega ao gosto do cliente.
Quer que a realidade diga que você pode ser absolutamente qualquer coisa? Ela dirá. Quer que transforme desejo em realidade objetiva? Ela transforma. Quer que considere violência o simples fato de alguém não enxergar você da maneira como gostaria de ser enxergado? Ela considerará. A realidade social deixou de ocupar o lugar de limite e passou a ocupar o lugar de serva da vontade humana.
E então surgem indivíduos que acreditam sinceramente possuir autoridade para impor aos outros suas próprias construções subjetivas da existência. “Ai de quem disser que eu não sou aquilo que eu digo ser.” Ai de quem se recusar a participar da fantasia pessoal. O outro passa a ser tratado como criminoso moral simplesmente porque ainda enxerga a realidade concreta compartilhada. Mas ninguém pode obrigar outra pessoa a perceber algo que ela sinceramente não vê. O outro nos percebe a partir da realidade objetiva que compartilha conosco, não a partir da narrativa íntima que criamos sobre nós mesmos.
É justamente aí que o convívio humano começa lentamente a se romper. Cada indivíduo passa a possuir suas próprias regras, sensibilidades, exigências e expectativas. Cada um acredita merecer que o mundo inteiro se reorganize ao redor de suas dores particulares. Porém, nenhuma sociedade consegue sobreviver dessa maneira. Não existe convivência possível quando toda realidade compartilhada é dissolvida em desejos individuais.
Isso não significa negar a subjetividade humana. Cultura muda. Linguagem muda. Comportamentos sociais mudam. A sociedade é construída por seres humanos e, portanto, está em constante transformação. Mas existe uma diferença profunda entre transformar estruturas sociais e tentar negar completamente os limites da realidade.
O problema talvez seja ainda mais profundo: muitos indivíduos já não sabem quem são. Não possuem identidade sólida, não compreendem os próprios limites e não conseguem lidar com a própria angústia. E um indivíduo perdido dentro de si inevitavelmente tentará transformar o mundo externo numa extensão do próprio caos interno. Se alguém não consegue habitar a si mesmo, nenhum ambiente será suficiente. Nenhuma sociedade será boa o bastante. Porque o problema não está apenas fora, mas principalmente dentro.
Vivemos então um círculo de autoalimentação da fantasia. Uma sociedade emocionalmente adoecida produz indivíduos frágeis, e indivíduos frágeis produzem uma sociedade ainda mais incapaz de sustentar critérios comuns de responsabilidade, verdade e realidade. A consequência disso é uma erosão lenta da convivência humana. Perdemos a capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo moral. Perdemos a capacidade de suportar frustração. Perdemos a capacidade de reconhecer que existir implica limites.
A realidade humana passou a ser moldada conforme o desejo humano. E talvez esse seja o verdadeiro retrato da decadência moderna: uma civilização inteira tentando transformar vontade em realidade, sentimento em verdade objetiva e desconforto emocional em autoridade moral. Uma sociedade que desaprendeu a encarar os limites da existência e passou a exigir que o mundo inteiro participe de suas fantasias particulares.
A realidade social pode ser manipulada, encenada, negociada e prostituída conforme os desejos de cada época. Linguagem muda. Cultura muda. Narrativas mudam. Homens tentam desesperadamente remodelar o mundo à imagem de suas próprias fragilidades.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
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