Eu tive um amor que partiu. E talvez seja justamente por ter sido tão amada por ele que eu ainda acredite tanto no amor.
Foram 11 anos. Só 11. Mas dentro deles coube uma vida inteira.
Hoje eu tento lembrar da voz do meu pai e não consigo. Isso dói. Mas lembro do rosto, do sorriso, do jeito protetor e de cenas tão simples que o tempo nunca conseguiu apagar.
Lembro do recreio da escola, quando eu pedia minha merenda e ele aparecia muitas vezes com pão com manteiga e mortadela. Lembro dele trabalhando até tarde e eu, tão pequena, cabendo deitada no balcão só esperando ele terminar.
Por causa de um acidente, ele não dirigia. Mas tinha uma bicicleta. E eu amava ir na garupa com ele assistir ao jogo do Industrial. Para alguém podia ser só uma bicicleta. Para mim era alegria, segurança e amor.
E tem uma lembrança que até hoje me faz rir. Quando minha mãe estava brava comigo, ele avisava: “Some por um tempo que sua mãe está brava.” E eu sumia mesmo, fugindo das Havaianas dela. kkkkk
Ele era lindo. Carinhoso. Protetor. Presente.
Hoje, num dia frio, a saudade veio forte. Queria que ele tivesse conhecido o neto, acompanhado tanta coisa e visto a mulher que eu me tornei. E gosto de acreditar que ele teria orgulho.
Mas essa saudade também me lembrou de algo: a gente perde tempo demais com coisas pequenas. Guarda mágoa, adia o abraço, o perdão, o “eu te amo”, como se tivesse certeza de que haverá amanhã.
Nem sempre haverá.
Quando alguém parte, a gente descobre que não sente falta das grandes coisas. Sente falta do pão com mortadela. Do balcão. Da bicicleta. De uma frase boba. De uma presença que um dia parecia comum.
Talvez Deus esteja me lembrando hoje: releve mais. Ame mais. Perdoe enquanto há tempo. Diga que ama enquanto ainda existe alguém para ouvir.
Eu tive meu pai por 11 anos. Foi pouco para tudo que eu ainda queria viver com ele, mas foi amor suficiente para me ensinar por uma vida inteira como é ser profundamente amada.
E talvez seja por isso que eu ainda acredite tanto no amor.
Porque ele partiu.
Mas o amor dele nunca saiu de mim.
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