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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

CONSERTANDO

 “Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes; para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças” (Mt 8.16, 17).

A disposição de Jesus para fazer o bem, refletindo o caráter santo de Deus, era também sua irresistível inclinação a “consertar as coisas”. A perfeição de Jesus contrastava enormemente com as consequências do pecado na Criação, o que inclui o próprio ser humano. O “exílio” autoimposto de Deus retirando sua presença pessoal dentre os homens para evitar que tivesse que julgá-los e condená-los imediatamente, pois não pode negar-se a si mesmo, radicando-se no céu até o último dia, encontra um meio-termo na humanidade de Jesus. Embora Deus esteja presente em todos os lugares garantindo a existência de tudo em sua onipresença, não se relaciona mais diretamente com o homem, por este ser pecador. Assim, de uma forma surpreendente, Deus pôde andar entre os pecadores como homem, o Criador como criatura, revelando-se ao mundo na medida da humanidade, a exata proporção do conhecimento humano.

Quem via a Jesus via o próprio Deus (Jo 14.9). No entanto, enquanto a presença pessoal da divindade sozinha significaria juízo, Deus em figura humana significou salvação. É verdade que o próprio Deus também se manifestava na humanidade de Cristo por meio de seu Santo Espírito, ungindo-o e capacitando-o para a realização de toda a sua obra. Os milagres de Jesus manifestavam sua messianidade. Para desfazer o que o primeiro homem causou por seu pecado, o segundo Adão cumpriu tudo o que se esperava daquele original, além disso, pagando a dívida de sangue de todos os eleitos. 

Em seu tempo de humilhação, quando nasceu e viveu entre pecadores, a disposição de justiça de seu coração divino se manifestava como misericórdia e graça, justiça substitutiva por assim dizer, cumprindo-a no lugar dos homens ao invés de executá-la. Em sua obra chamada “vicária”, que quer dizer exatamente “substitutiva”, nosso Senhor exercia justiça realizando-a no lugar dos pecadores. Foi assim que Jesus cumpriu a Lei substituindo seus eleitos, por causa da incapacidade inata deles de o fazer, entregando-se à morte para, por fim, pôr fim à morte e vencê-la na ressurreição.

Entretanto, a disposição de Jesus pelo cumprimento da justiça se manifestava também em erradicar, o quanto lhe fosse cabível, os efeitos da injustiça, isto é, do pecado original. Certamente a justiça está nos limites daquilo que é moral, espiritual, não físico ou material. A injustiça é consequência direta da disposição para o mal, o pensar e agir em conformidade com o Maligno. Todavia, ela se reflete na materialidade, não apenas como atos, como agressões físicas e verbais, roubos de propriedades, mas também como efeitos na própria Criação decorrentes da entrada do pecado no mundo. Isso é o que chamamos de “deformidades” da Criação por causa da queda.

É certo que, sendo o mal moral, ocorre nos domínios da alma, ou seja, nos limites da vontade e dos pensamentos. Atos são apenas consequências do que está dentro do homem. Por causa disso, só pode pecar quem tem capacidades morais, seres inteligentes o suficiente para entender a diferença entre certo e errado. Esse é um dos argumentos contrários à aplicação do evolucionismo às Escrituras. Como poderia o Criador fazer um pacto e exigir obediência de um ser incapaz de pensar? Sem falar que faria de Deus algo semelhante, pois criou o homem à sua imagem, conforme a sua semelhança.

Dessa forma, se o homem original foi irracional, não existe pecado original, não há humanidade caída, Jesus não pode ser segundo Adão. Toda obra de salvação e a revelação bíblica teriam laborado no erro. Certamente, a Criação não caiu, pois não peca, porém sofreu as consequências da queda por sua ligação indissolúvel com o homem criado da terra. São deformidades que o Senhor permitiu em sua Criação perfeita, mas ainda assim restritas, por sua comum graça, permitindo ainda condições de habitação ao homem pecador. A matéria passou também a morrer, isto é, a matéria dos seres, os corpos. Tudo o que é vivo se decompõe fisicamente. Além disso, há pragas que assolam o mundo, bem como, intempéries que frequentemente causam a morte de milhares.

Jesus reagia a tudo isso, trazendo à normalidade tudo o que se apresentava agudamente afetado, todas as coisas que se mostravam diametralmente opostas à ordem perfeita, por amor dos eleitos. Dessa forma, acalmou uma tempestade, multiplicou pães, curou, expulsou demônios e, até mesmo, ressuscitou pessoas. Ele era a Vida, algo muito maior do que o simples respirar dos corpos: a harmonia da existência entre tudo e todos com Deus. A vida foi o que o Criador trouxe à existência no início, a existência em uma ordem perfeita de criação no relacionamento com o Senhor. É o desfrute da presença e do contato com Deus em uma existência de perfeita harmonia da Criação. É exatamente isso que começamos a viver em Cristo.

Assim, quando Jesus se deparava com alguma situação que explicitava alto grau de deformação do padrão original, ele, como Criador junto com o Pai e o Espírito, “consertava”, trazendo mortos novamente à vida, curando corpos e almas, alimentando, apaziguando ventos e mares brigados com o homem desde a queda. Era uma forma de demonstrar que era Deus em figura humana, amando os eleitos, substituindo-os na justiça, anulando alguns efeitos da injustiça.

A mesma disposição de Jesus está naqueles que receberam seu Espírito Santo. Todo nascido de Deus também quer ver a justiça de Deus na prática dos homens (“santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como nos céus”), bem como, trabalha com afinco para reduzir o impacto das deformidades trazidas pela queda nos dias dos pecadores, auxiliando nas doenças e lutos, alimentando, ajudando a minimizar danos causados pelas intempéries.

Há no coração de todo nascido de Deus o desejo por uma ordem perfeita de Criação, o retorno ao relacionamento pleno com o Criador. Enquanto isso não chega no retorno de Jesus, trabalhamos para “consertar as coisas”, assim como fez nosso Senhor, embora, no nosso caso, em escala muito menor e de forma muito menos eficiente. Nosso principal ato: a evangelização. Tenha um excelente dia na presença de Deus 

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