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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SABIO

 

“Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade. Pois, tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 2.15-17).

Foi desta forma que Friedrich Nietzsche, alguém que morreu louco, definiu a existência: “parênteses entre dois nadas”. Para ele, nada há antes, bem como, nada há depois. Viemos do nada e para o nada voltaremos. Sem dúvida, quem tem tal perspectiva de existência, concluirá que a vida é um grande nada inconsequente, pois aquilo que fazemos aqui tem implicações apenas temporárias e passageiras. Como uma miragem mais densa, aquilo que podemos chamar de “presente existência” levaria um pouco mais de tempo para se dissipar. A filosofia inaugurada por Nietzsche ficou conhecida como niilismo, termo cunhado do latim nihil, que significa “nada”. Certamente, a proposta da existência como um grande “nada” não traz satisfação ao coração humano, embora Nietzsche ainda seja um dos autores mais lidos em nossos dias. Para compensar o “nada” do niilismo, desenvolveu-se o existencialismo, filosofia predominante do mundo ocidental hodierno. Até uma teologia existencialista foi gerada, vista em Friedrich Schleiermacher e mesmo Rudolf Bultman, amigo pessoal de Martin Heidegger, de quem empresta conceitos existencialistas.

Possivelmente originado por Sören Kierkgaard, o existencialismo teve sua vertente ateia popularizada especialmente por Jean-Paul Sartre. Dessa forma, para ele, o que pode conceder algum sentido à existência é a intensidade das realizações, a emoção. É interessante que, sua filosofia levada ao extremo, concluirá que o homem realmente não existe, isto é, a vida continua um enorme “nada”. O que o homem deve buscar é meramente o sentir-se existindo por meio de momentos intensos. O existencialismo ateu é relativista e inconsequente. Como não há Deus, não há sequelas para além da presente experiência. O homem é o único padrão de certo e errado, portanto, mutável e momentâneo. Aquilo que é considerado certo hoje, amanhã pode ser errado, dependendo sempre da circunstância e do interesse do indivíduo. Afirma-se a liberdade do “ser” vista na forma de simplesmente buscar o sentimento da existência. Isso valida todos os atos diante do próprio sujeito que o pratica.

Olhando para os escritos do sábio Salomão, especialmente o que encontramos no livro de Eclesiastes, pode ser que alguém perceba nele um existencialista, ainda que teísta, quase um niilista. O olhar de Salomão para a presente vida é fortemente pessimista. Parece até concordar com Nietzsche ao afirmar que o resultado de toda busca humana se resume à vaidade, isto é, um grande nada. Porém, há enormes diferenças entre Salomão e Nietzsche. Para o Sábio a existência é real e há um Deus verdadeiro; para o Louco, tudo não passa de um grande nada. Para o Sábio, a sabedoria se expressa exatamente no “temor do Senhor”, no conhecimento de Yahweh e na resultante obediência sincera. Aquele que vive com Cristo, recebe de sua vida e de sua existência, que extrapolam a temporalidade, a morte física gerúndia, estendida, da queda de Adão. Para o Louco não há Deus. O homem é um “lobo solitário do próprio homem”, trazendo a célebre frase popularizada por Thomas Hobbes para nossos dias existencialistas. A existência é solitária, pois tudo ao redor são apenas objetos, meios da busca de uma existência pessoal. O indivíduo é o vórtice de todas as coisas. Tudo e todos se tornam meios das múltiplas e variadas experiências a serem buscadas, a coisificação de tudo e todos.

Para o Sábio, o “grande nada” do existencialismo não existe essencialmente, ou seja, as coisas de fato existem, garantidas pela própria existência eterna do Criador. O “grande nada”, a vaidade, existem quanto aos resultados pretendidos. A busca do pecador pela realização de seus maiores desejos o levará sempre à decepção, pois não tem a capacidade de preencher o coração. O vazio interior se perpetuará. Para o Louco, toda segurança obtida na fé em Deus é ilusão, puro engano, método de dominação criado pela igreja. A verdadeira existência está na vertigem do enfrentamento do “nada”. Com certeza, as propostas diametralmente opostas de entendimento da existência, ou da falta dela, levará também a conclusões antitéticas irreconciliáveis, das quais nenhuma síntese é possível. O ensinamento do sábio se sumariza: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer seja más” (Ec 12.13, 14).

Deus é a fonte de toda existência, na obediência a ele reside toda felicidade. Há padrão para vida, verdades absolutas, que balizam a presente existência e que servem de critério para um julgamento final. Todos deverão prestar contas de suas obras ao único Senhor. Ainda que o Sábio muitas vezes passe pelas mesmas dificuldades e por iguais sofrimentos que são vistos na vida do Louco, acredita em um propósito superior que não pode ser alcançado pela mente humana. Para o Louco todo sofrimento é essencialmente ruim, sendo prova da ausência de Deus. Sua concepção de bem e de Deus é a concordância com a vontade do pecador. Colocando isso de outra forma, Deus só existiria se concordasse em tudo com ele. O louco, que desprezou a verdadeira realidade e abraçou o vazio da ilusória existência, tende à loucura, à total desesperança, o retorno ao nada. Aquilo que o homem chama de vida é apenas um apagamento, a morte: esquecimento.

Glória a Deus nas maiores alturas! Vivemos a realidade em Cristo! A loucura é consequência da vertigem constante, do banimento do medo, na verdade, seu adiamento, alguém que se jogou em um vazio e, estando em queda livre, acredita que tudo acabará bem pois ainda não se chocou com a morte em seu derradeiro suspiro. Nessa busca de existência o homem continua caindo, como se Adão ainda não tivesse atingido o chão. Enquanto no mundo o pecador pode rir da morte, mas haverá toda uma eternidade para a morte rir dele. Vivamos intensamente a vida sim, mas para Deus, para expansão do seu reino, não para nós mesmos. Nós que já existimos eternamente ligados indissoluvelmente a Cristo, amemos ao Senhor com nossa vida, com nossos dias, dando consistência cada vez maior à imagem e semelhança de Deus em nós. Tenha um excelente dia na presença do Senhor 

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