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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

TRAVESSIA

 

“Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139:16).

Chegávamos a este mundo na mais profunda escuridão dos olhos fechados. Talvez tenha sido o ímpeto pelo conhecimento que fez com que o bebê receba imediatamente a luz que lhes é dada por aquela que o gestou, olhos abertos para iniciar o treinamento da visão. A visão completamente nova ainda não tem as capacidades para realmente enxergar, dando ao recém-nascido a habilidade limitada de simplesmente perceber um clarão com alguns vultos completamente incompreensíveis. Os dias aprofundam e especificam o foco, passando aquele extrato de gente, ainda tão insipiente, a ser capaz de divisar os primeiros contornos e semblantes. É assim que vai acumulando informações visuais, um verdadeiro banco de dados sem o qual a visão de nada valeria. Nós não apenas vemos, mas reconhecemos coisas já vistas, pela comparação de imagens arquivadas em nossa memória. Assim, somos capazes de perceber as coisas e pessoas que estão adiante de nós. Toda imagem, assim como se afirma na linguística, é um texto, algo a ser lido, conteúdo e mensagem.

 Quando alcançamos a fase do falar passamos a conseguir nos comunicar de forma mais efetiva. Descobrimos o mundo da comunicação, de, por meio de sons, fonemas e gestual, transmitir mensagens, informações e mesmo emoções. No entanto, logo nos sentimos insatisfeitos, ao perceber que há outras formas de comunicação não pessoal, por meio da matéria escrita e, atualmente, por meio de mídias. Queremos aprender a registrar nossas palavras para que outros possam decodificar o que pretendemos comunicar ou informar.

 É nessa fase que começamos a efetivamente descobrir o que somos e o que é a existência à qual passamos a integrar. A figura dos pais nos é realmente vital. Eles são para nós a fonte de alimento, aprendizado e proteção. Para os cristãos, isso inclui também a esfera espiritual, quando os pais introduzem os filhos desde o nascimento ao ambiente das Escrituras e do culto. Enquanto na primeira infância, nossos pais são geralmente tidos como ideais, verdadeiros mitos, pessoas cujos erros, por maiores que sejam, são mitigados pelo respeito e admiração, pura dependência. Tratando-se de verdadeiros pais, não apenas reprodutores e matrizes, o olhar dos filhos é a construção de um modelo de paternidade e maternidade que tenderá a ser repetido quando chegar a nossa hora de ver nossas sementes germinarem. A presença deles tende a fazer da caminhada segura e tranquila, mesmo os momentos de trevas e temores. É a figura do pai, reflexo daquilo que faz o Pai eterno, mais do que um pastor, cujos vara e cajado consolam.

 A chegada da adolescência traz novas descobertas, especialmente a sexualidade da puberdade. Meninos e meninas começam a perceber de forma mais latente o desejo pelo sexo oposto, o impulso para a integração entre os sexos quando se tornam uma só carne no casamento. Felizes são aqueles que encontram um matrimônio para a vida toda, isto é, quando ambos chegam à velhice: força dobrada, ânimo repetido e enfatizado, sabedoria conjunta, consolo, alegria e carinho, comunhão e fraternidade. Todavia, é chegado o momento quando as pessoas descasadas parecem predominar. O próprio casamento já não é mais estimado como uma união inquebrável.

 A vida adulta, para muitos, é a vida solitária. A palavra “adulto” se tornou sinônimo de “autônomo”, alguém que se basta e vive para si mesmo, que realmente prescinde de qualquer vínculo ou elo duradouro com outro alguém. Um exemplo terrível, mas muito esclarecedor, é a utilização do termo para se referir a filmes pornográficos. Sem dúvida, a palavra “pornografia” é carregada de sentido negativo e reprovação. Foi substituída por uma designação que inspira até mesmo virtude e maturidade. São chamados “filmes adultos”, o que estimula o jovem a consumir esse lixo moral para experimentar e afirmar sua autonomia adulta, mais do que isso, uma obrigação aos adultos assistirem. O que se apresenta nesses filmes, além de comportamento sexual inteiramente execrável, é o tipo de vida na qual o sexo é apenas prazer, praticado de forma desregrada e sem limites entre pessoas sem qualquer compromisso verdadeiro. Talvez não haja mais afirmação da autonomia humana do que a utilização de seu corpo de forma soberana, estabelecendo a própria pessoa as regras (ou a falta delas) para a sua utilização. Por essa lógica, mesmo o assassinato é legitimado na prática covarde e demoníaca de incontáveis abortos.

 Quando o adulto vive assim, autônomo, percebe-se a solidão imposta pelo pecado. Se Deus não fosse quem é, seria realmente solitário: só há um! No entanto, além de ser tripessoal, é o único ser realmente autossuficiente, alguém que não tem qualquer necessidade, mesmo de relacionamentos. Entretanto, o homem que quer viver como um deus, por lhe faltar obviamente a essência divina, tenderá sempre à solidão. Mesmo o crente verdadeiro pode experimentar isso se se deixar levar pela antiga natureza. Esta deve ser amenizada e emudecida pela nova, o novo homem, que tem como padrão o Cristo ressuscitado. Porém, por falta do homem, algumas vezes o crente percebe estar sozinho.

 Atos de Deus e erros dos homens, ou um ou outro, às vezes os dois, o aspecto prático da harmonia entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, levam o salvo a vales profundos, escuros e tenebrosos, cuja sensação é a mais profunda solidão. Sofrimentos e pecados têm o poder de nos afastar de Deus, se nos faltar a atitude correta. Nesses momentos, explodem nos lábios do crente súplicas como a do salmista: “Das profundezas clamo a ti, Senhor. Escuta, Senhor, a minha voz; estejam alertas os teus ouvidos às minhas súplicas. Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (Sl 130:1-4). É como estar no abismo do mar, sendo encoberto pelas águas. Das profundezes clamamos, como Jonas, sepultado em vida no ventre de um grande peixe no mar profundo por causa de sua desobediência. Clamamos por misericórdia, pela ação do único que tem poder para fazer o que é preciso. São momentos em que esperamos unicamente no Senhor.

 Na caminhada da vida aprendemos que não pode haver pressa, apenas aprendizado e confiança de quem sabe que há tempo para todas as coisas debaixo do sol. A fragilidade do homem pecador assusta. Confundimos a longevidade de exceções como regra. Vemos na prática, isto é, na própria existência, a realidade da vontade soberana de Deus que estabelece os dias de todo ser, às vezes poucos, outras muitos. Como diz o verso epigrafado, ele já nos conhece ainda como substância informe. Todos os nossos dias estão contados e determinados. É verdade: ser um pecador e ser um deus para si. No entanto, o verdadeiro Deus se revelou na história da vida de cada eleito, concedendo realidade e consistência aos dias. Busquemos viver de forma agradável ao Senhor, dependendo inteiramente dele, que é nosso Pai. Não desconfiemos da vontade de Deus, nem mesmo da capacidade de seu perdão. Esse é um dos maiores perigos para nossa alma, amargura consumada. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus 

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