“Decorridos três anos, então, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas e permaneci com ele quinze dias” (Gl 1.18).
Geralmente pensamos a soberania de Deus relativa a atos específicos. Assim, diante da enfermidade: Deus é soberano. Se é alguma questão profissional, de onde vem o sustento que tanto necessitamos: Deus é soberano. Se há alguma crise familiar, um divórcio, um filho que se entrega completamente à iniquidade: Deus é soberano. Tratando-se de alguma situação difícil na igreja, um sério desentendimento com um irmão, ou, até um falso irmão: Deus é soberano. Colocando isso de outra forma, geralmente pensamos a soberania de Deus em termos muito mais particulares, pessoais, individuais. No entanto, o que precisamos entender é que a soberania de Deus se manifesta no todo, não simplesmente no particular. Quando enfatizamos o “todo” não queremos dizer que o Senhor não atenta às causas particulares, mas sim que todas as partes são organizadas dentro de um todo. Precisamos resgatar essa consciência integral, o entendimento de que não há aleatoriedade nas obras de Deus.
Creio que todos nós já tivemos a sensação de que algo estava fora do lugar. Especialmente o sofrimento nos causa essa sensação. Algo repentino que nos abate parece ser uma coisa “solta”, algo que não estava em nossos planos, que não previmos. Na verdade, determinada demanda que se deu sem que estivesse em nosso suposto controle. Realmente, coisas repentinamente boas também geram sensação parecida. Nós não esperávamos aquela bênção, mas ela nos surpreendeu como algo igualmente não planejado, às vezes, até mesmo não buscado. Costumeiramente dizemos que são coisas que “caíram em nosso colo”. Todavia, o senso de desnorteamento é como que encoberto em favor da grande alegria que se sente por ter recebido algo que nos trouxe enorme satisfação.
No caso dos acontecimentos tristes, o desnorteamento é acentuado como algo que intensifica ainda mais o sofrimento. Há grande satisfação e confiança para o crente quando entende sua vida como um todo. Ele tem a plena certeza que os acontecimentos, não importa se felizes ou tristes, fazem parte de um único propósito de Deus para sua vida. Não há coisas soltas, não há nada aleatório. Tudo faz pleno sentido e se encaixa perante os olhos do Senhor, mesmo que nós, muitas vezes, não entendamos.
É exatamente isso que contemplamos aqui neste verso, quanto à vida do apóstolo Paulo. O que acorria com ele não era aleatório. A partir do verso 18, o apóstolo inicia uma narrativa que tem como objetivo contar seu encontro com os apóstolos de Jerusalém. Lembremos sempre, e isso não pode sair de nossa vista, que ele está se defendendo das acusações levantadas conta ele, de que seu apostolado, seu chamado, e sua mensagem, o evangelho que pregava, eram falsos. Quem os acusava eram os judaizantes, que pretendiam uma espécie de regressão, ou seja, fazer com que o cristianismo aceito pelas igrejas da Galácia voltasse ao judaísmo. Certamente, o retrocesso é da verdade cristã, uma vez que os gálatas jamais foram judeus, no caso, prosélitos. Os judaizantes pregavam que os gálatas deveriam ter um judaísmo com roupagem cristã. Assim, Paulo demonstrará claramente como foi bem recebido por Pedro, bem como, que pode ouvir dele sua experiência com Cristo.
No capítulo dois falará de nova ida a Jerusalém. Em nosso verso temos, portanto, o início desse contato com os apóstolos de Jerusalém, ocasião que se deu logo após sua fuga de Damasco devido ao plano de alguns que pretendiam tirar-lhe a vida. Isso está narrado no Livro de Atos 9.23ss, logo depois de sua conversão. Temos uma referência, no mínimo, curiosa, que atesta exatamente o que estamos dizendo sobre uma cisão ampla e geral do propósito de Deus, ou seja, que cada situação particular de nossa vida se encaixa dentro de um único propósito do Senhor para nós. Diz a Escritura: “Decorridos três anos, então, subi à Jerusalém para avistar-me com Cefas”. O que devemos nos perguntar é: por que três anos? Será que o apóstolo ficou esperando olhando para um “calendário”, completarem-se três anos para que pudesse ir a Jerusalém? Certamente que não! Mas por que esse tempo?
Temos então uma preciosa informação sobre a obra de Deus na vida do apóstolo Paulo. Os chamados originalmente para o apostolado, aqueles que ficaram conhecidos como os “doze”, passaram três anos com Cristo, vivendo com ele, caminhando justos, dormindo nos mesmos lugares. Foi o melhor, incomparável e mais intenso seminário que alguém poderia ter. Quando o apóstolo Paulo diz que ficou três anos após a sua conversão, antes de ir avistar-se com os seus congêneres de Jerusalém, é isso que está nos dizendo. Por três anos esteve em intensa comunhão com Cristo, preparando-se pessoalmente para o ministério para o qual o próprio Jesus o havia comissionado. Provavelmente o Jesus glorificado não se manifestou fisicamente a Paulo durante esses três anos, repetindo a experiência do caminho de Damasco, mas de forma prolongada. O que parece mais plausível é que seu encontro com Cristo, tão dramático que foi, foi como que desdobrado, compreendido, nesse sentido “aperfeiçoado”, durante aqueles três anos. Tratou-se de ocasião de maturação para Paulo.
É provável que, como alguém chamado para ser apóstolo e necessitando de experiências compensatórias que lhe suprissem os três anos que não esteve com Cristo como os doze, tenha recebido muitas experiências sobrenaturais. Precisando da direção do Senhor para todas as coisas, aparições de anjos eram relativamente comuns, bem como, visões e sonhos (p. ex. At 16.9). O objetivo era guiar os apóstolos nas mais difíceis decisões. O número três está associado à ideia do fim de um percurso e o início do novo, de algo que se completa e inaugura, até mesmo, a um limite estabelecido por Deus.
Vemos nas orações que esse é o limite para as súplicas. Elias suplicou a Deus a cura do filho da mulher que o acolhia, estendendo-se três vezes sobre ele. Moisés retrucou seu chamado para regressar ao Egito e libertar o povo por três vezes. Jeremias, em seu livro, intercede pelo povo três vezes. Jesus, no Getsêmani, na noite em que foi traído, orou três vezes ao Pai. De igual forma, Jonas ficou por três dias no ventre do grande peixe, figuradamente voltando dos mortos, quando é vomitado nas praias de Nínive. Jesus ressuscitou ao terceiro dia. Paulo ficou três dias cego, com escamas nos olhos, até receber a visita de Ananias. Assim, também, os apóstolos ficaram três anos com Cristo, bem como, Paulo.
Certamente, há alguma ligação da subida de Paulo a Jerusalém após três anos e a subida de Jesus dos mortos ao terceiro dia: o final de algo e o início do novo. Esse sentido também se aplica aos três anos dos apóstolos com Cristo e ao próprio ministério de Jesus, especialmente visível em sua declaração: “Está consumado”. Deus tem planos de realização em nossa vida e se incumbe ele mesmo de concretizá-los. Esperemos em sua santa e soberana vontade. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
Nenhum comentário:
Postar um comentário