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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

IDOLOS


“Por que dura a minha dor continuamente, e a minha ferida me dói e não admite cura? Serias tu para mim como ilusório ribeiro, como águas que enganam?” (Jr 15:18).

 É fato que aquilo que experimentamos hoje, a existência do homem caído, não pode ser chamada de “vida”. Basta notar que esta lhe foi negada quando foi expulso do Éden. Foi a maneira de o Criador deixar muito claro que a humanidade perdeu o direito ao fruto da árvore da vida. Adão foi expulso exatamente para não comer desse fruto. Deus não idealizou sua Criação como algo que seria marcado pela morte. Ao contrário, o Senhor é Deus de vivos, não de mortos. O que se liga a Deus é apenas vida, nunca a morte. Adão, antes da queda, experimentava tão-somente vida, tendo a possibilidade de ratificar eternamente esse estado, transformado em essência, por toda a eternidade no Ser de Deus, mediante obediência.

 Todavia, a morte entrou no mundo de carona com o pecado. São como seres alienígenas à Criação de Deus. Quando Paulo indica a origem do pecado, afirma que ele “entrou no mundo”: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5:12). Claramente, o conceito que o apóstolo dos gentios tem de pecado indica sua origem do lado de fora da Criação, como algo não idealizado pelo Criador originalmente.

O homem foi criado como reflexo da divindade, imagem e semelhança do Criador, para viver como Templo do Espírito em uma Criação que tem a estampa divina. Sua opção pelo pecado implica uma vida alternativa àquela criada por Deus. Na verdade, agora a existência significa um mundo de homens, idealizado por pecadores para sua própria glória e satisfação. Eis o motivo por que o pecador existe nesta terra: seu próprio prazer, a concretização de suas próprias vontades, em um mundo que agora pretende ter a estampa humana de seres que se pretendem deuses para si mesmos.

Todavia, ao invés de um mundo de homens, o que Adão conquistou com sua desobediência foi um mundo demoníaco, tendo o diabo como seu príncipe e aliado. O homem caído vive a mesma revolta original que satanás deu início ao pretender usurpar o reino de Deus dado aos homens, o reino sobre toda a Criação. Tornou-se escravo do mesmo mal que governa o diabo, perdendo qualquer capacidade de agradar ao Senhor com seus atos, palavras e pensamentos. Não mais vive. Ao invés disso, existe em um mundo no qual tudo passa, uma existência que tem a morte como marca e peculiaridade.

Todos estamos morrendo a cada segundo. Nossa vida se esvai como em uma ampulheta, cuja areia vemos escoar a cada dia. Contudo, é possível que, por algum motivo, as areias do tempo parecem correr mais rápido, antecipando a morte mesmo antes do último suspiro do pecador. Lembro-me de um querido e piedoso pastor que, devido a um tumor no cérebro, perdeu paulatinamente os movimentos. Dizia, sem qualquer rancor, que o Senhor lhe fez velho ainda relativamente jovem, necessitado do amparo e do cuidado de outros como se já tivesse alcançado os cem anos. Faleceu depois de alguns anos de muito sofrimento. O que dizer que outros que apenas existem, inconscientes da própria existência, mortos ainda em vida?

Para o homem sem Cristo, a morte é prova e a experiência da maior de todas as misérias! É quando o pecador que pateticamente viveu buscando sua própria vontade como um deus se depara com o fim inevitável, percebendo acima de qualquer suspeita que não passa de um mísero mortal. No caso do crente, quando surpreendido por situações extremas, necessidades indiscutíveis, qual a licitude de esperar que o Senhor considere realizar exatamente aquilo que suplica? Dizendo isso de outra maneira: uma real necessidade pode se tornar um ídolo, algo tão desejado a ponto de suplantar nosso desejo por Deus? Certamente que sim. Coisas que verdadeiramente precisamos, cuja falta nos fere e faz sofrer de alguma forma, podem estimular a tal ponto nossa vontade por sua saciação que passamos a esperar do Senhor apenas e tão-somente que a supra.

Quão difícil é, para a alma pecadora, rogar com todas as forças: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Sujeitar nossa vontade ao Senhor, secundar mesmo a maior das necessidades ao propósito divino, é aquilo que precisamos aprender a fazer. Louvado seja o Senhor por situações terríveis não serem experimentadas por todos. Enfrentamentos dessa intensidade, experiências desse calibre, atingem percentualmente a poucos e em poucas ocasiões. Na maior parte das vezes, o Senhor graciosamente supre com aquilo que é necessário.

No texto epigrafado Jeremias externa toda sua frustração com o Senhor pelo fato de sofrer pelo seu ministério. Primeiramente, o próprio povo o perseguia e, por fim, o exílio se avizinhava inevitável. Significava a perda de vidas, de família, o cativeiro em terra estranha etc., a soma de todos os temores que um ser humano possa ter. As ocasiões de sofrimento são o ambiente das piores tentações, como acusações blasfemas contra o Senhor. Percebendo a irreversibilidade do sofrimento, Jeremias se volta contra Deus acusando-o de tê-lo abandonado, alguém que esperava nele. Nesse ponto, sua real necessidade se tornou maior do que sua submissão a Deus e seus propósitos.

Cuidemos para não permitir que nossos desejos e vontades, por mais lícitos e nobres que sejam, suplantem nosso desejo por Deus e por seu agrado. Não façamos de nossas necessidades doces ídolos legitimados pela falta. Lembremos que não há bênção ou real satisfação a não ser na vontade de Deus. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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