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terça-feira, 23 de junho de 2026

FAMILIA


“Como te alegraste com a sorte da casa de Israel, porque foi desolada, assim também farei a ti; desolado serás, ó monte Seir e todo o Edom, sim, todo; e saberão que eu sou o Senhor” (Ez 35.15).

É realmente impressionante como os relacionamentos familiares trilham percursos tão opostos, atrelados ao caráter dos seus integrantes, às circunstâncias, a interesses. A família foi criada para ser grande bênção, a extensão da vida individual transformada na pluralidade de relacionamentos com pessoas ligadas pela carne, pelo sangue, pelo espírito. Por ela deveríamos viver experiências compartilhadas, multiplicando nossa felicidade ao assumir as bênçãos dos familiares como nossas próprias alegrias. Uma família abençoada é uma família unida. Nada tem a ver com prosperidade material, mas unidade espiritual, confiança, integração, unidade.

Quando isso não ocorre, estimula-se a concorrência. Isso é uma coisa interessante e humana. Todo homem tem a natureza de um competidor nato. Se duas pessoas começam a correr lado a lado, logo sentirão o desejo de passar à frente da outra. Se um carro se aproxima de outro para uma ultrapassagem em uma via de várias faixas, mas apenas um pouco mais veloz, é comum observar aquele que vai ser ultrapassado acelerar. Isso nos mostra que quando não há um trabalho em equipe, quando não há unidade de propósito, há competição. Individualidades sempre gerarão competição. 

Colocando isso de outra forma, não há como pecadores estarem juntos, mas não em cooperação, sem se tornarem competidores em alguma medida. Dessa forma, marido e mulher se não se virem como uma só carne também profissionalmente tornar-se-ão competidores, medindo sempre os avanços de um e de outro. Se filhos não desfrutarem de verdadeira união, vivendo apenas como indivíduos, mas não como família, competirão para terem o soberbo prazer de se provarem melhores aos seus próprios olhos, também para alcançar a melhor avaliação dos pais e dos de fora.

Por causa dessa jactância natural, que no meio profissional tem sido transformada em “virtude” como “ambição”, que nada mais é do que a terrível cobiça, a busca da própria glória, a família é um dos mais poderosos instrumentos do diabo na vida de um crente autêntico. Daí Jesus dizer: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.34-37).

O próprio Cristo não foi reconhecido em sua casa, a ponto de formular uma das afirmações mais impressionantes que encontramos nas Escrituras: “Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa” (Mc 6.4). É fato que seus meios-irmãos não criam nele até sua morte e ressurreição. Há certo consenso que todos foram posteriormente alcançados. Sabemos com certeza que dois deles, Tiago e Judas, autores das cartas que levam seus nomes, foram salvos.

O diabo também usou a família de Jesus contra ele, como quando estava pregando exatamente sobre a atuação do diabo e foi bruscamente interrompido: “Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe” (Mt 12.46). O contexto sugere que Maria e seus filhos foram usados pelo diabo para atrapalhar o discurso de Jesus.

O texto epigrafado também fala de relacionamentos familiares truncados. Os montes de Seir eram a possessão de Edom, outro nome de Esaú. É curioso que no início de Deuteronômio, o Senhor diz claramente a Moisés que não tomariam dele nem mesmo a área da planta de um pé, pois o Senhor o havia dado a Esaú. “Não vos entremetais com eles, porque vos não darei da sua terra nem ainda a pisada da planta de um pé; pois a Esaú dei por possessão a montanha de Seir” (Dt 2.5). No entanto, o desejo de matar Jacó mostrado por Esaú quando se viu roubado da bênção da primogenitura parece ter permanecido no coração de seus descendentes.

Embora Esaú e Jacó tenham “feito as pazes” em um reencontro após cerca de vinte anos da fuga deste para a casa de Labão, chama-nos a atenção que, mais uma vez, Jacó engana seu irmão, dizendo que o seguiria até sua morada, mas tomando rumo diferente. Todo povo constitui sua história, escrita ou oral. Qual a gênese dos edomitas? Descendentes de alguém que foi traído por seu irmão. É provável que essa história tenha sido preservada, cristalizada na tradição, repetida geração a geração, de forma que os israelitas, irmãos dos edomitas, jamais teriam sido bem-vistos por eles.

Fato é que os Edomitas passaram a odiar os israelitas a ponto de se alegrar com seu infortúnio. Essa atitude de alegrar-se com a desgraça de um “irmão” trouxe a eles o desagrado do Senhor e o consequente juízo sobre eles. Ter satisfação com o desastre de um familiar, ainda que não crente, é algo terrível aos olhos do Senhor. Lembremo-nos ainda que isso também se aplica aos relacionamentos de igreja, pois somos família de Deus, irmãos eternos.

Às vezes o crente toma os atos e as permissões de Deus como se fossem sua própria vingança. Deus não se associa às malignas intenções de um coração pecador e não admite que seus atos sejam assim interpretados para satisfações pecaminosas de um coração vingativo. Esquecemo-nos que “a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20). Tenhamos cuidado com nossas leituras dos acontecimentos, com nossa satisfação pelo infortúnio de familiares baseado em um senso de justiça humano, mesmo de inimigos. Isso não procede do Senhor. É a celebração da tragédia da condição humana. Oremos por nossos familiares! Aproximemo-nos deles! Busquemos andar juntos em tudo aquilo que é agradável ao Senhor. Ao invés da competição, cooperação, comunhão ao invés da inveja e da soberba. Tenha um excelente dia na presença do Senhor 

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