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sábado, 8 de junho de 2024

DEUS

 O conhecimento de Deus nos leva ao conhecimento de nós mesmos.


Por outro lado, é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que tenha, antes, contemplado a face de Deus e, da visão dele, passe a examinar a si mesmo. Ora, sendo o orgulho inato a todos nós, sempre parecemos, a nós mesmos, justos, íntegros, sábios e santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça, indignidade, insensatez e depravação. Não somos, porém, assim convencidos, se atentamos apenas para nós mesmos e não também para o Senhor, que é o único parâmetro pelo qual se deve aferir este juízo.


Pois, uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. E porque dentro de nós ou a nosso redor nada se vê que não seja contaminado de grande impureza – enquanto mantemos nossa mente confinada aos limites da depravação humana –, aquilo que é um pouco menos sujo nos sorri como sendo coisa de mais refinada pureza.


Exatamente como se dá com um olho diante do qual nada se põe de outras cores senão o preto: julga ser alvíssimo o que, entretanto, é de brancura

um tanto esfumada, ou até mesmo escurecido de certa tonalidade fosca.


[...] Assim também se dá ao estimarmos nossos recursos espirituais. Pois, enquanto não olhamos para além da terra, de maneira muito fantasiosa nos orgulhamos de nós mesmos, de todo satisfeitos com nossa própria justiça, sabedoria e virtude, e nos imaginamos pouco menos que semideuses. Mas, se pelo menos uma vez começarmos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele e quão completa é a perfeição de sua justiça, sabedoria e poder – a cujo parâmetro devemos nos ajustar –, aquilo que antes em nós sorria sob a aparência ilusória de justiça logo como plena iniquidade se mostrará; aquilo que maravilhosamente nos impressionava sob o título de sabedoria exalará como extremada estultícia; aquilo que se mascarava de poder provará ser a mais deplorável fraqueza.


Portanto, está longe de conformar-se à divina pureza o que em nós se apresenta como absolutamente perfeito.



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