As diferentes manifestações da natureza sempre prenderam meu olhar e continuam enchendo de alegria o meu coração. Me considero um contemplativo da obra da criação. Nestes dias, os ipês estão me encantando demais. Bem que eles poderiam ficar floridos mais tempo. Assim como nós, antes da floração os ipês passam pelo rigor do inverno, que é a dor que eles precisam passar para florir. A dor faz parte da vida, embora tantas vezes tentemos negá-la ou esconder suas marcas. Queremos avançar sem sentir, recomeçar sem passar pelo processo de esvaziamento, mas o caminho verdadeiro exige mergulho completo naquilo que nos atravessa. A coragem não está em sufocar o sofrimento, e sim em acolhê-lo, permitindo que cumpra seu papel de transformação. Doer inteiro não significa rendição ao desespero, mas aceitação de que há momentos em que não conseguimos remendar as próprias feridas de imediato. É como a terra que precisa receber a chuva até encharcar, para então se abrir novamente ao sol. O coração humano é assim: precisa atravessar as tempestades para que, em seguida, reencontre a força de florescer. Esse florescer não acontece de repente, mas em processos lentos, quase imperceptíveis. Um gesto de bondade recebido, uma palavra de esperança, uma oração silenciosa, tudo isso vai irrigando a terra seca da alma até que brote o primeiro sinal de vida nova. A coragem, portanto, não é a pressa de sair da dor, mas a confiança de que ela não terá a última palavra. Aceitar a inteireza da dor nos ensina humildade e nos reconcilia com a condição humana. Descobrimos que somos frágeis, mas não estamos sozinhos. Deus caminha conosco nesse processo, sustentando-nos nos momentos em que as forças parecem acabar. A segunda-feira, marcada por recomeços, traz consigo esse lembrete precioso: mesmo quando o coração ainda lateja de dor, já está sendo preparado para florescer outra vez. O ciclo da vida nos ensina isso repetidamente. Depois do inverno, a primavera sempre chega. Depois da poda, o galho volta a produzir. Assim também somos nós, chamados a confiar que, mesmo atravessando dores profundas, existe em nós a semente da esperança que não morre. No tempo certo, ela rompe a terra endurecida e faz nascer o novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário