“Tu, porém, Senhor, permanece para sempre, e a memória do teu nome, de geração em geração” (Sl 102.12).
O homem tem o senso da eternidade em seu coração, mas não a pode viver à parte de Cristo. O desejo pela verdadeira vida está em sua alma, mas o caminho para ela foi não apenas perdido, mas vedado desde a queda. Esse desejo está ligado ao conhecimento inato que tem de Deus, algo genérico e insuficiente para levá-lo ao correto relacionamento com o Senhor, incapaz de gerar nele a fé.
A aspiração por uma vida eterna é proclamada por meio de poemas e músicas, como que evidenciando as “saudades” do paraíso perdido. Tal sentimento se evidencia ainda mais diante dos problemas dessa terra. Quando passamos por momentos de adversidade, muitas são as tentações. A religiosidade das sociedades se desenvolveu sempre em função da necessidade premente que enfrentavam. Assim, tentavam garantir uma boa colheita, vencer inimigos que os ameaçavam, erradicar pestes de lavoura ou aquelas que destroem o ser humano na forma de enfermidades.
Em outras palavras, a humanidade tem um forte censo pragmático quando pensa em religião. Adorarei o deus que resolve meu problema e realizarei a ceri mônia ou rito que conceder aquilo que está no meu coração. Assim, não importa o deus que se busque, bem como, não importa o que terei que fazer. Pensa-se a religião para resolver problemas imediatos, eminentemente terrenos. Perceben do tal tendência humana, devemos nos precaver de nos permitirmos tal desvio, real apostasia. Enquanto as coisas estão caminhando relativamente bem não te mos nenhum problema com isso. Todavia, é quando algo muito importante para nós está em jogo, é nesse momento que nossa fé é provada. Fé, digo, não o princí pio comum, aceito pela maioria, de que há um Deus, mas a confiança naquilo que o Senhor vai fazer.
Dessa forma, se outro seguimento religioso se propuser a fazer exatamente aquilo que significa a sua “necessidade” imediata, esse é o momento quando sua confiança em Deus se mostrará verdadeira, ou, apenas, aparente. No nosso texto, o salmista demonstra estar debaixo de grande aflição. Duas coisas ele faz. A pri meira delas é reconhecer a fragilidade e transitoriedade humanas. Os problemas que enfrentamos sempre devem nos levar, primeiro, a essa reflexão. O que somos nós? Queremos tanto que nosso clamor seja respondido, como se tivéssemos direito sobre a vida, mover acontecimentos, a opção de não nos conformar àquilo que acontece.
Nesse ponto, os animais parecem levar grande vantagem. Se uma mãe é roubada de seus filhotes, não adoecerá em profunda depressão para o resto da vida. Continuará a viver e certamente gerará outros filhotes. Se você, andando pelo campo, desfizer um formigueiro, em pouquíssimos dias ele estará refeito. Os animais, sem consciência da própria vida, reagem melhor a ela do que nós, capazes de racionalizar os acontecimentos. Ao invés de ocupar nossas mentes com as perdas, deveríamos orientá-la para novas coisas, entendendo que a vontade de Deus se realizou. O que está feito, está feito, concretizado no tempo.
Voltando ao salmo, o autor sagrado percebe, então, a enorme diferença entre Deus, o que “permanece para sempre”, e nós. Os feitos do Senhor são cantados desde que há mundo, enquanto a memória dos homens, mesmo dos grandes, é mais e mais apagada. Esta é a base de nossa confiança em Deus: ele não passa, sua vontade é imutável, ele sempre é. Portanto, ao invés de chorarmos a presente existência, celebremos a vida eterna que temos em Deus. Se houve um tropeço, levantemos e continuemos. Se perdermos algo muito significativo, vivamos com as de mais coisas que o Senhor nos tem dado. Não há como recuperar o “leite derramado”. Aprendamos a viver na perspectiva do cuidado e da vontade de Deus. Que ele nos guia mesmo nas maiores tormentas. Ele estabelece para nós um caminho de fé por sobre as dificuldades. Em Deus já começamos a viver a eternidade. Tenha uma abençoado dia na presença de Jesus
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