“para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais” (Ef 3.10).
Nesse texto, Paulo continua a falar de seu ministério. No entanto, agora, ele está a tratar dos resultados da obra de Cristo, que é aquilo que ele foi chamado a anunciar. Tal vai além, muito além, daquilo que os olhos humanos poder ver e assimilar. Na verdade, esse verso é uma revelação! Algo que só podemos saber porque o Espírito Santo de Deus desvelou ao apóstolo Paulo, direcionando-o e orientando-o a escrever. Nossa tradução está com uma ordem diferente das palavras que se encontram no texto grego. Seguiremos o que está no grego, porque provavelmente especifica melhor a intenção do apóstolo.
Assim: “Para que seja conhecida, agora, pelos principados e potestades nos lugares celestiais, por meio da igreja, a multiforme sabedoria de Deus”. O verso se inicia com uma conjunção de finalidade. Ela é usada para expressar um propósito. Então, todo o conteúdo daquilo que está anunciado a partir do verso 8 tem o objetivo do que está expresso aqui no verso 10: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas” (Ef 3.8, 9). O evangelho foi pregado aos gentios para manifestar o mistério oculto de salvação em Jesus Cristo, “para que”, “a fim de que” a multiforme sabedoria divina fosse conhecida agora, pelos principados e potestades, por meio da igreja.
O verbo traduzido em nossas Bíblias como “se torne conhecida” é um único termo no grego, e tem uma qualidade de ação completa. Além disso, está na voz passiva. Portanto, o que o apóstolo está dizendo é que o propósito de salvação perpetrado por Deus foi conhecido de uma vez por todas pelos principados e potestades. Por isso, também, na sequência vem o “agora”. Na ordem do texto grego, temos: “a fim de que seja conhecida, agora”. Este “agora” é um termo escatológico, isto é, uma palavra que implica uma consumação que aponta para o fim de todas as coisas. Um “agora” que fala de algo feito por Deus em Cristo que destaca uma nova dispensação, uma era quando Deus realiza na igreja algo diferente em relação aos antigos. É a plenitude de seu propósito de salvação sendo executada.
A grande ênfase de Paulo é que a sabedoria de Deus se torna conhecida aos principados e potestades por meio da igreja. Deus tem com propósito mostrar aos poderes demoníacos a fragorosa derrota à qual foram submetidos. Colocando isso de outra forma, o Senhor destaca aos olhos deles como, em sua sabedoria, os humilhou e fez cair todas as estratégias satânicas de fazer perder o homem. A “multiforme” sabedoria tem como sentido: “muito variada”, alguma coisa que apresenta várias formas ou que se manifesta de múltiplas maneiras. Reparemos que essa “multiforme sabedoria” aqui se refere à salvação do gentio, mais do que isso, alude à unificação de um único povo pertencente a Deus, por meio de Jesus Cristo, na composição da igreja.
Esse povo unificado é chamado igreja! Notemos que esse propósito do Senhor de constituir um único povo, formado de todos os povos, sem considerar mais qualquer separação, qualquer divisão entre judeu e gentio, não é uma proclamação da igreja às hostes demoníacas. É sua própria existência! Em outras palavras, a igreja não prega isto aos demônios: “agora somos um único povo”. Claro que não! Entendamos, então, que tal realidade, ou seja, o fato de Deus tê-la constituído assim, é também o meio do Senhor mostrar ao diabo e seus anjos a unificação do povo como uma única igreja. Com isso, Deus dá um golpe fatal às intenções originais do diabo.
Temos que entender que divisão é algo demoníaco! A máxima romana: “dividir e conquistar” é a maior estratégia do próprio diabo, e isso, a começar da palavra diabolôs no grego. Ela tem como sentido morfológico exatamente a ideia de dividir. É composta da preposição dia mais o termo bolos. A preposição tem como ideia central aquilo que corta, que atravessa, portanto, o que divide. Esta é a essência do próprio ser caído, a começar de satanás, passando por seus demônios, alcançando também os homens ímpios. É a divisão e a intriga que os qualifica. Foi o que o diabo causou no homem, trouxe intrigas e divisão entre o homem e Deus, com o pecado. Como efeito da queda, também marido e mulher passariam a ter atritos. Pais e filhos foram separados quando Caim é expulso da presença de Adão por ter matado Abel. Nisto percebemos também a divisão entre irmãos.
Por fim, houve divisão entre o homem e a Criação, uma vez que o ser humano passou a ser o maior predador do meio onde habita. O homem a destrói e a Criação responde matando e ferindo o homem com secas, pragas, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, enchentes, doenças e ataques de animais. É verdade que o Senhor também dividiu a humanidade, mas uma humanidade já caída, depois do dilúvio, no episódio da Torre de Babel. No entanto, seu objetivo era misericordioso. Dividiu a humanidade em várias línguas para evitar que a impiedade se multiplicasse a um nível que traria sua própria destruição, tendo o próprio Criador como inimigo máximo e absoluto. Basta ver o que ocorre em nossos dias, quando todos procuram conhecer e falar uma língua internacional. De igual forma, a era digital e midiática, que interliga os quatro quadrantes do mundo causa na humanidade um senso de união pernicioso que dá certa tranquilidade para que os homens se afundem em pecado, expressando ainda mais claramente sua revolta contra Deus.
No entanto, a confusão de línguas é desfeita neste “agora” escatológico que vemos em nosso verso. No Pentecoste, último ato do ministério terreno de Jesus, as grandezas de Deus são anunciadas nas línguas dos povos. Os idiomas falados ali pelos apóstolos mostram isto: a constituição de um único povo de Deus, povo internacional, multinacional, multiétnico, poliglota, multicultural. É isso o que afirma o nosso texto. Essa é uma faceta da multiforme sabedoria de Deus. O diabo dividiu o Éden! Deus unificou todas as coisas em Jesus Cristo! O reino de Deus é essa realidade bendita de ser um em vários povos diferentes. Somente este ano, tive a bênção de ter comunhão no Senhor com indígenas, africanos de várias etnias, coreanos e portugueses. Todos crentes no mesmo Cristo, herdeiros das mesmas promessas, uma única e a mesma família de Deus, tendo a mesma importância diante do Senhor.
Que tremenda sabedoria é essa! A bendita realidade da unidade da igreja de Cristo. Notemos a sabedoria que o Senhor faz de nós os beneficiados, sabedoria que nos constitui única igreja, sabedoria que organiza os eleitos de todas as culturas, de todas as etnias, de todas as línguas, todos modelados pelo mesmo evangelho para a formação de uma só igreja global! Que riqueza de povo é essa! Que bela e magnífica é a igreja de Cristo! É assim que a glória de Deus se manifestou, humilhando o ardil do diabo desde o início. Essa é a tamanha graça de Deus que nos salva, que busca os eleitos em todos os lugares do planeta. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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