“Bem-aventurados...” (Mt 5.3).
Quando vemos nosso Senhor subir ao monte no início de seu ministério, tal se deu como resultado de alguns passos anteriores. Primeiramente, só ocorreu após ter sido batizado (ungido) pelo Pai com o seu Santo Espírito na ocasião quando Jesus também foi batizado por João Batista. De igual forma, o Messias teve que ser depois conduzido pelo mesmo Espírito, com o qual foi ungido e assumiu sua messianidade, para o deserto, com o claro propósito de ser tentado, a fim de passar pela prova que o primeiro Adão fracassou. Jejuou quarenta dias no deserto como havia feito Moisés diante do Horebe, quando pedia misericórdia ao Senhor por ter o povo constituído para si um bezerro de ouro.
Jesus se mostra como o Cristo, “Ungido” para se assentar definitivamente no trono vago de Davi seu pai, bem como, revela-se como o profeta semelhante a Moisés que haveria de vir. Esses dois personagens: o Messias e o profeta prometido se fundem na pessoa de Cristo. Assim, no Sermão da Montanha vemos Jesus promulgando sua Lei, assim como Moisés havia feito no Monte Sinai com as tábuas da Lei. No caso de Cristo, estava, na verdade, recuperando e expandindo o verdadeiro significado daquilo que já havia sido revelado no Antigo Testamento, deturpado pelos judeus de sua época.
No monte, dirige-se exclusivamente a seus discípulos a fim de doutriná-los sobre o que significava segui-lo. Inicia mostrando o perfil de um crente, um discípulo ideal, descrevendo-o nas bem-aventuranças. Ao fazer isso, certamente pinta um autorretrato. Mostra que a vida cristã significa ser feliz, ao contrário da existência miserável que alguns chamados crentes dizem ter.
A grande questão é que se confunde a verdadeira alegria com o sentimento de satisfação existencial, quando todas as coisas parecem convergir para a sua própria vontade. Então, se a existência parece agir a favor dos homens, estes dizem estar felizes, um sentimento que logo passa, satisfação efêmera como as coisas transitórias que tanto buscam, nas quais depositam sua satisfação. É isso: para um ímpio, alegria é sinônimo de sua satisfação pessoal.
No entanto, para o crente verdadeiro, felicidade é uma certeza que jamais pode ser retirada de seu coração, de sua alma. Quem crê realmente em Jesus nunca está feliz! Ele é feliz! Trata-se de essência, não de estado. Este é passageiro, relativo às circunstâncias, enquanto aquele descreve o que jamais se altera. Sentimentos vão e vêm, uma certeza é perene. Por não ser um sentimento, posso estar chorando a perda de um ente querido e mesmo assim sou feliz. A tristeza pela morte é sentimento que passa, mas a alegria é permanente, associada a própria fé, ao conhecimento eterno de Deus, que ninguém tem poder de remover do coração.
Essa felicidade se traduz em paz e segurança em um coração que confia no Senhor e em sua vontade, qualquer que seja ela. Inclui a capacidade de dobrar a vontade humana para aceitar o propósito de Deus para sua vida, ainda que seja dor e sofrimento. O crente vive a felicidade quando sua saciação e satisfação estiverem em Deus, não no contentamento de suas próprias vontades, situações em que dirá que não entende, que está doendo, mas pacificamente se conforma e quer sinceramente que o Senhor continue a fazer sua vontade. A vontade de Deus é o que ele realmente quer, qualquer que seja ela.
Nossa satisfação, nosso prazer, nossa alegria têm que ser descentrados de nós e centrados em Cristo. A felicidade cristã ocorre em meio ao sofrimento. Perdeu-se de vista o verdadeiro evangelho que indica o sofrimento como parte integral e constitutiva da vida cristã, a começar das inevitáveis perseguições. É curioso e demoníaco perceber que se cristalizou na chamada igreja evangélica a ideia de que nossa felicidade está em Deus refletir nossas vontades, em nos dar o que queremos, a ponto de podermos, até mesmo, determinar a ele o que ele tem que fazer. Isso é extremamente herético, mesmo blasfemo.
A verdadeira felicidade jamais será experimentada sem o esvaziamento de nós mesmos e a negação deste mundo, secundando todas as coisas e pessoas à vontade e à glória de Deus. O próprio Jesus dá exemplo de inigualável humildade por não se apegar à glória divina para assumir uma natureza humana e assim viver como homem no meio de pecadores. Muitos dizem ser cristãos, mas vivem para sua própria glória! Sua experiência com Cristo não passa de um meio de alcançar suas próprias vontades. Não há serviço! Não há humildade! Apenas a tentativa de manipular a Divindade. Por olharem apenas para si mesmos, por mirarem a glória e a satisfação humanas somente, multiplicam a dor e o sofrimento, somando às dificuldades que permanecem a decepção de não ter alcançado o que queriam. Veem apenas a realidade humana, não a glória divina.
Recobremos a verdadeira alegria cristã, destinada àqueles que são perseguidos por sua fidelidade, àqueles que se privam mesmo de coisas lícitas se isso resultar uma melhor consagração, aos que se gastam e se deixam gastar no serviço árduo, mas prazeroso, prestado ao Senhor. A verdadeira felicidade, a alegria cristã, está na submissão ao propósito de Deus, na obediência aos seus mandamentos, na solidez de uma vida intensa de discípulos, devoção e serviço. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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