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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

FERIDA

Somos uma verdadeira coletânea de registros, que continua produzindo sentimentos. Às vezes, uma palavra, um gesto, um sinal: são suficientes para trazer à tona acontecimentos marcantes. Sim, nem toda reação exagerada pertence ao agora. Muitas vezes, o que explode no presente nasceu em um passado que não foi acolhido. O corpo e a emoção guardam memórias que a mente racional não organiza por completo. Quando um gatilho é acionado, a resposta não vem da maturidade atual, mas da parte ferida que ficou congelada no tempo. É por isso que algumas situações pequenas geram reações desproporcionais. Não é o fato em si que dói tanto, é o que ele desperta. A criança interior, o adolescente inseguro, a versão fragilizada que não foi ouvida volta a falar através da emoção. Entender isso muda tudo. A reação deixa de ser motivo de culpa e passa a ser sinal de algo que pede cuidado. O gatilho não é inimigo, é mensageiro. Ele revela onde ainda há dor não elaborada, medo não acolhido, insegurança não curada. Enquanto tentamos controlar apenas o comportamento, o ciclo se repete. A cura começa quando olhamos com compaixão para essa parte antiga de nós. Não se trata de justificar tudo, mas de compreender. A maturidade emocional não elimina gatilhos, mas aprende a reconhecê-los antes que dominem a reação. Quando percebemos que a emoção pertence a outro tempo, criamos espaço entre o estímulo e a resposta. Esse espaço é liberdade. Nele, a consciência assume o comando e a reação automática perde força. Curar o trauma não é apagar o passado, é integrá-lo. É permitir que a dor antiga seja vista, nomeada e acolhida com os recursos que hoje existem. O adulto que somos pode cuidar da criança que fomos. Esse cuidado transforma reações em respostas e impulsos em escolhas. Aos poucos, o presente deixa de ser refém do passado. A vida se torna mais leve quando entendemos que algumas dores não pedem julgamento, pedem atenção amorosa. Reconhecer a origem da reação é um passo essencial para interromper padrões que se repetem. E cada vez que escolhemos consciência em vez de impulso, algo se cura por dentro. 

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