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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

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  “Então Jesus disse: — Em verdade lhes digo que esta viúva pobre deu mais do que todos.”

Lucas 21: 3.
Lucas 21:1–4 é um dos textos mais mal utilizados da Bíblia. Com frequência, ele é transformado em propaganda religiosa para incentivar contribuições financeiras. No entanto, lido com atenção, no seu contexto literário e teológico, o texto faz exatamente o oposto: Jesus não está ensinando sobre dar dinheiro, mas denunciando um sistema religioso injusto que se sustenta da exploração dos vulneráveis.
O erro começa quando se ignora o contexto imediato. Em Lucas 20:47, poucos versículos antes, Jesus faz uma denúncia direta contra os líderes religiosos:
“Eles devoram as casas das viúvas e, para o aparentar, fazem longas orações.”
Essa acusação não é abstrata. Ela prepara o leitor para a cena seguinte. O que Jesus vê logo depois? Uma viúva pobre colocando no tesouro do templo tudo o que tinha para viver. Lucas constrói a narrativa de forma intencional: o sistema que “devora viúvas” agora está recebendo a última moeda de uma viúva. Isso não é coincidência literária; é ironia profética.
Quando Jesus afirma que ela deu “mais do que todos”, Ele não elogia o sistema nem institui um modelo de contribuição. Ele apenas descreve um fato moral: os ricos deram do que lhes sobrava; ela deu tudo. O texto não diz que Jesus a incentivou, nem que prometeu recompensa, nem que ordenou aos discípulos que fizessem o mesmo. O silêncio de Jesus aqui é acusação, não aprovação.
Esse entendimento se confirma no que vem logo depois. Em Lucas 21:5–6, Jesus anuncia a destruição total do templo:
“Não ficará pedra sobre pedra.”
Se o gesto da viúva fosse um ideal a ser promovido, faria sentido Jesus defender o templo. Mas Ele o condena. O mesmo sistema que aceita o sacrifício extremo de uma mulher indefesa está sob juízo.
Além disso, a própria Lei que o templo dizia defender exigia proteção às viúvas, não sua exploração:
“Não oprimirás a viúva nem o órfão.” (Êx 22:22)
“Maldito aquele que perverter o direito da viúva.” (Dt 27:19)
Os profetas repetem a acusação:
“Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça à viúva.” (Is 1:17)
“O Senhor entra em juízo contra os líderes… porque esmagais o meu povo.” (Is 3:14–15)
Portanto, o problema não é a fé da viúva — ela é genuína. O problema é um sistema religioso que aceita sua oferta sem cumprir sua responsabilidade. A viúva confia em Deus; o templo falha em representá-lo.
Aplicando para hoje, Lucas 21 confronta qualquer estrutura religiosa que:
• espiritualiza a miséria;
• glorifica sacrifícios que destroem pessoas;
• mede espiritualidade pela capacidade de contribuir;
• vive da fé dos fracos enquanto se protege institucionalmente.
Usar esse texto para pressionar pessoas a dar dinheiro é trair o próprio ensino de Jesus. Ele não está promovendo arrecadação; está desmascarando um culto que perdeu a justiça, a misericórdia e a verdade (cf. Mt 23:23).
Deus nunca precisou do último recurso do pobre. O que Ele exige é que os que dizem servi-lo defendam os vulneráveis, não se beneficiem deles. Onde um sistema aceita tudo e cuida de ninguém, não há adoração — há abuso religioso.

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