Levar os pensamentos à obediência de Cristo
“levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5).
Imaginar o que foi a experiência de Adão antes da queda é simplesmente impossível para nós hoje. Por mais que projetemos nossa mente em direção à perfeição, ainda estará tão longe daquilo que foi realmente. Um dos efeitos mais nocivos causados pela desobediência original foi uma verdadeira fratura entre corpo e alma. O ser humano criado uno e indivisível, passou a ser submetido à divisão de sua essência entre corpo e alma. É outra forma de dizer que vivemos um estado de morte. Após a queda, o Criador faz com que todo homem seja destinado invariavelmente a essa separação entre o físico e o espiritual. De certa forma, isso é perceptível na existência, pois o corpo envelhece, mas não a alma. Esta permanece incólume e perene, enquanto aquele vai mostrando o desgaste constante em sua estrutura, vitalidade e aparência. Conquanto o corpo seja mortal, a alma é imortal. Daí, a disruptura, a separação torna-se apenas uma questão de tempo.
O fato de existirmos um estado de morte, pois nosso corpo está morrendo a cada segundo, faz com que foquemos muito mais a realidade daquilo que é passageiro, do que do que é eterno. Paradoxalmente, aquilo que passa acaba por desenvolver em nós muito maior valor do que aquilo que é permanente. A realidade da morte coloca em destaque naturalmente o físico, ao invés do espiritual, como se o corpo necessitasse muito mais de nossa atenção do que o espírito. Certamente, o fato de o homem natural estar cego e morto para Deus é o fator central e determinante para a ênfase do corpo. Dizendo isso de outra forma, por ser um morto de alma, aquele que não conhece a Jesus viverá apenas para aquilo que é físico e material.
Todavia, a lógica das Escrituras é exatamente o oposto. O corpo, embora tendo a garantia de salvação, ainda não a desfruta realmente. A alma se encontra redimida, mas a redenção do corpo só ocorrerá na ressurreição final, na volta de Cristo. Quando tentado a enfatizar o corpo sobre a alma, disse Jesus: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4). Longe de defender que o corpo seja descartável, justificando deixá-lo sem os devidos cuidados e manutenção, as Escrituras nos ensinam a cuidar do corpo, pois ele é afirmado ser “Templo do Espírito”. Temos responsabilidade de zelar por nossa saúde.
Pois bem, o homem natural enfatiza o corpo, enquanto o novo homem, nascido da água e do Espírito, enfatiza a alma. O pensamento é domínio da alma. Retomando o que dissemos acima, o estado de Adão antes da queda era “pensar os pensamentos de Deus”. Dá para imaginar o que era isso? Pensar “em rede” com o Criador? A segurança de imaginar sempre e exclusivamente o que Deus quer, desejar seus desejos e querer sua vontade? Uma vez que a imagem e semelhança do Criador em nós se dá no espírito, pois Deus não tem corpo, o pecado deformou nossa alma, afastando-nos da perfeição original, da vida completamente integrada a Deus. É como se perdêssemos a direção, como se não soubéssemos por onde ir, quando assumimos, nós mesmos, a responsabilidade de decidir e escolher. Embora isso possa parecer bom e aprovado ao homem secular hodierno, a afirmação da completa liberdade e autonomia humanas, na prática, significa insegurança, parcialidade, decisões muitas vezes erradas, a perda de viver sempre o acerto para viver inevitavelmente na dinâmica de “tentativa e erro”.
A forma bíblica para acertarmos mais do que errar estabelece a busca contínua e constante da comunhão diária com Jesus. Na prática, implica tempo de qualidade dedicado à leitura das Escrituras e à oração. Isso modelará nosso espírito, formatará nossos pensamentos e determinará nossos desejos e vontades. Viver Cristo é ter a alma transformada, a reconstituição da imagem e semelhança de Deus em nós, deformada pelo pecado.
O texto epigrafado destaca algo importantíssimo dessa realidade, nossa responsabilidade de buscar viver a integração original de nossos pensamentos à mente divina. No contexto no qual o apóstolo escreveu tais palavras, falava da importância de formatar os pensamentos exclusiva e estritamente à verdade escriturística. Enquanto falsos apóstolos e falsos mestres enveredavam por suas próprias elocubrações mentais, Paulo confessa que seus pensamentos estavam “escravizados” à mente de Jesus. Dizendo isso de outra forma, dele jamais viria qualquer defesa da mentira ou da heresia.
Contudo, levar os pensamentos cativos à obediência de Cristo é princípio amplo e geral, sendo aplicado a todas as coisas em nossa existência, uma espécie de norma a ser seguida. A imagem e semelhança do Criador em nós nos fez seres criativos. Somos capazes de projetar coisas em nossa mente, de imaginar e antecipar realidades, para o bem e para o mal. Falando-se do mal uso do pensamento e das imaginações, pode-se desenvolver imaginações vis e perniciosas tanto de experiências quando de acontecimentos, uma espécie de mundo interior criado no coração de cada pecador. Em seu sentido positivo, deveríamos nos imaginar como Cristo, decidindo como se fosse ele a decidir, querendo exclusivamente o que ele quereria. Imaginarmo-nos como se fôssemos o próprio Cristo. Disse o sábio Salomão sobre o homem: “Porque, como imagina em sua alma, assim ele é” (Pv 23:7).
O mau uso da mente, porém, não se aplica a apenas projetar o pecado, a vingança, mas também em multiplicar a dor por meio da imaginação. Sêneca, filósofo estoico, afirma: "Sofremos mais frequentemente na imaginação do que na realidade" (Carta 13). É interessante como somos capazes de sofrer coisas que nem mesmo são reais simplesmente imaginando os piores resultados ou antecipando a dor que ainda não existe. As agonias de alma multiplicam o sofrimento. Costumeiramente, o Senhor toma o exemplo dos animais para humilhar os homens racionais. No sofrimento também são exemplares. Eles são incapazes de agonias, pois não podem projetar e antecipar dores, sofrimentos e perdas. Dessa forma, não sofrem na alma, apenas no corpo. Suas aflições físicas, por mais redundante que isso possa parecer, são apenas corpóreas de fato. Por isso que é comum não percebermos que estão com dores.
Aprendamos a levar nossos pensamentos à obediência de Cristo também no que diz respeito às nossas dores e dificuldades. Não antecipemos acontecimentos, atraindo agonias para nossa alma. Lancemos sobre Deus as nossas ansiedades, tendo a plena certeza de que ele tem cuidado de nós (1Pe 5.7). Deixemos de lado a preocupação com nossa própria vontade e desejos, voltando a buscar a integração com a mente de Deus, seus propósitos e vontade. Imaginemos um “eu” ideal, como se fosse o próprio Cristo vivendo nossa vida. Nisso está nossa alegria e a paz que excede todo entendimento. Tenha um abençoado dia da presença de Jesus
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