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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

JUSTIÇA

 A falsa justiça sem misericórdia

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).
Dentre as coisas mais difíceis que há para pecadores e falhos é a aplicação da justiça. A nós que não temos justiça nos é exigido a aplicação da justiça. Por definição, “justiça”, para que seja real e essencialmente justa, tem que ser infalível. Quando entendemos isso, percebemos que não há como ter de fato uma justiça pessoal. Chegar a essa conclusão, certamente, é importante, mas não nos exime de buscar tê-la, ou seja, de procurar com todas as forças agir de forma correta e aprovada ao invés de renunciarmos a tal busca pela óbvia impossibilidade de alcançá-la.
Embora não consigamos ter uma justiça real e consistente, por sermos pecadores, todos temos a responsabilidade de desenvolver ao máximo a justiça pessoal, nosso testemunho de vida, procurando chegar o mais perto possível do ideal. Isso pode ser inferido na ordem de Jesus: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48). O Senhor sabe que a perfeição é completamente impossível para nós enquanto pecadores. No entanto, não deixa de ordená-la. Entendemos assim que, conquanto seja inalcançável nesta terra, ainda assim permanece como alvo a ser buscado. Não podemos desistir de procurar com todas as forças a perfeição para que cheguemos o mais perto possível dela, com toda humildade.
Precisamos aprender a praticar o bem exatamente por isso, porque é o correto a se fazer, porque é o que agrada a Deus, porque tenho prazer em tudo o que é santo e justo. Nosso alvo jamais deverá ser impressionar, um tipo de falsa justiça apenas para impactar, para que seja louvado por homens. Isso é o que os líderes judeus procuravam fazer. Jesus afirma que quando alguém procura o louvor dos homens por aquilo que faz já está recebendo sua recompensa. Porém, nada receberá da graça de Deus. Ao agir pela frieza da letra contra meu próximo sempre será louvor de mim mesmo. Ao condenar sem misericórdia o erro do outro exalto minha própria justiça como infalível, a proclamação a plenos pulmões de que não compartilho e não pratico tal coisa. É contra isso que Jesus exorta no verso epigrafado.
A realidade de nossa imperfeição, isto é, que todos somos falhos e pecadores, deve nortear sempre a aplicação da justiça. Quando dizemos isso não estamos afirmando que o conceito se torna relativo, amorfo, disforme ou líquido, como quer o pós-modernismo, mas, simplesmente, que devemos considerar o fato de que: “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3:10). É a consciência dessa verdade que levou o salmista a suplicar a Yahweh: “Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (Sl 130:3, 4). Qual é sua postura diante do único que pode te perdoar uma dívida eterna? Qual o tamanho de sua gratidão?
Quando dizemos que devemos considerar sempre a imperfeição de todos na aplicação da justiça preciso lembrar que também Deus age assim. Na presente época, no atual estado do homem caído, antes do retorno de Cristo no último dia, mesmo o juízo divino é pleno de misericórdia. No livro de Apocalipse, quando vemos juízos antecipatórios e de advertência dados contra a humanidade que insiste em viver em suas impiedades, ainda assim vemos que são dados como oportunidades de arrependimento (Ap 16.9). O único juízo que será sem misericórdia será o final, quando a oportunidade de arrependimento já terá passado.
Mesmo no Antigo Testamento vemos a perspectiva da misericórdia do Senhor como muito maior do que sua retribuição ao pecado. Conquanto os pecados dos pais nos filhos possam ecoar até a terceira ou quarta geração dos que são infiéis, a misericórdia de Deus vai até mil gerações aos que o obedecem (Êx 20.5, 6).
Aí está a nossa grande dificuldade: achar o equilíbrio entre norma e misericórdia, entre lei e graça. Na verdade, há aqueles que indicam que essa é a receita para toda e qualquer manipulação: quando interessa, defendemos o cumprimento do preceito; quando não, indicamos o caminho da misericórdia. Certamente, aqueles que agem conscientemente assim são pessoas que mostram total descompromisso com aquilo que é honesto e justo. Todavia, isso pode se dar também de forma inconsciente ou mesmo resultado de suposto ato de favorecimento a pessoas próximas. Será que nosso julgamento quanto às atitudes do amigo é o mesmo que temos para com os mais distantes ou mesmo um inimigo? Seria lícito manipular normas para beneficiar pessoas que nos são queridas ou usá-las como vingança contra pessoas que nos feriram?
O problema se torna ainda mais complicado quando consideramos o pecado da omissão. Deixar de fazer o bem, aquilo que é necessário ser feito, é tão condenável quanto praticar o mal: “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg 4:17). Cada vez mais, mesmo o cristão tem se omitido diante da injustiça, especialmente se isso for lhe trazer algum incômodo ou supostamente lhe causar algum problema. Talvez seja correto afirmar que a grande maioria dos que declaram a fé em Jesus hoje é testemunha muda diante da injustiça sem nada fazer. Deixamo-nos convencer de que não praticar o mal, a passividade, significa santidade e justiça, assumindo confortavelmente a omissão diante de tantas situações que deveríamos ter nos manifestado abertamente contra a injustiça.
Em nossos dias, ser injustiçado significará também ser abandonado e experimentar solidão mesmo quanto a supostos amigos e irmãos. Aprendamos a olhar para o erro do outro de forma compassiva, sem ser complacente, com misericórdia, mas sem aceitar o erro ou o pecado, não como um pacto de conivência, isto é, não falo do erro do outro e ele não fala do meu, porém buscando ajudarmo-nos mutuamente a andar na correção e justiça, sendo alguém que está pronto a erguer o que cai. O legalismo nasce da aplicação de padrões de justiça que estão em si corretos, mas que não considera a falibilidade e a fraqueza, a frieza da letra insensível. É curioso que a sensibilidade na aplicação da justiça, o portarmo-nos com humildade, ao invés do orgulho farisaico, é destacado por Jesus como uma marca indelével do habitante do reino dos céus no verso epigrafado.
Embora seja indispensável que haja regras para delimitar atitudes, funções e comportamentos o ser humano não é programável. Não há matemática dos relacionamentos. Procuremos sempre a sabedoria diante de Deus para exercermos a justiça própria para a condição que vivemos como pecadores redimidos: sem abrir mão dos conceitos perfeitos de justiça, olhar com misericórdia para todo faltoso, buscando sempre o equilíbrio necessário, sem partidarismo ou parcialidade. Que a nossa justiça seja plena de misericórdia. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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