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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

SENHOR

 Aguardando em Silêncio

“Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio” (Lm 3.26).

O som é algo que dá dinamismo e realismo à existência. A sensação de todos que têm boa capacidade auditiva, ao tamparem os ouvidos, é de um grande vácuo, um vazio. Boa parte da experiência da realidade parece ter sido perdida. Um certo tom de inexistência parece nos sobrevir, e sentimo-nos absortos, experimentando uma diferente e estranha sensação. Nossa avidez por sons é tão grande que, até mesmo, a ausência absoluta de qualquer ruído, dá-nos a sensação de som: “o barulho do silêncio”. É indiscutível que o ser humano é um ente que produz e aprecia sons. As melodias existem não apenas como a modulação de vários tons e sons, mas também com as pausas: o silêncio também precisa ser ouvido. Elas têm, ainda, influência em nosso ânimo: as marchas marcam os passos irremovíveis do avanço do exército, música “profética” de triunfo; a valsa faz como que flutuar aqueles que, por se encontrarem enamorados, já passeiam nas nuvens. Ainda, há os ritmos sensuais, os que se assemelham às terríveis explosões sem qualquer melodia, a antessala do inferno, e, os solenes.

Entendemos, portanto, que não é qualquer som que deve haver no lugar da adoração. Quando o Senhor concordou com a construção do Templo por Salomão, ficou estabelecido que não deveria haver o mínimo barulho já durante a construção. Todas as pedras vieram das pedreiras já cortadas em suas dimensões exatas para serem encaixadas em seus devidos lugares: “Edificava-se a casa com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” (1 Rs 6.7). Deus não suporta barulho no local de culto. Conquanto o homem seja apreciador de sons, isso não o impede de, com igual paixão, desejar o silêncio. No momento apropriado, o silêncio é uma necessidade. Nas horas de sono, na meditação e oração pessoal; na fuga do inimigo ou do animal feroz; diante do insulto, para não revidar com uma moeda de maior valor; na intimidade do casal, onde parece dizer o que as palavras não podem expressar.

O silêncio pode, como exemplo real da lei da relatividade, parecer eterno, quando resulta angústia: a leitura silenciosa de um exame, por um médico, mediante suspeita grave; a resposta da amada, depois do pedido mais importante do namoro; os instantes silenciosos do aguardar o nascimento do primeiro filho, para o pai que agoniza na sala de espera. Silêncio, ainda, significa sabedoria, para todos os que se dominam. Cessar de falar no devido momento pode comunicar mais do que muitas palavras. Ao escrever as palavras transcritas acima, Jeremias destaca exatamente esse ponto. Ele foi um homem vocacionado pelo Senhor para profetizar contra sua nação e família, na verdade, o seu próprio infortúnio. O povo estava exilado, longe do Templo e da “esperança e glória de Israel”. Em terra estranha, os herdeiros das promessas de Abraão, Isaque e Jacó, não tinham ânimo ou alegria, pois, tudo o que lhes dava, outrora, alegria, havia se perdido. Seria hora de acusar o Senhor de fracassar, de ter-lhes traído na aliança?

A culpa de todos os reveses que se abateram era do próprio povo, quando desobedeceu, buscou outros deuses, adulterou o Pacto. Talvez pudessem, então, cobrar um pronto restabelecimento, uma obra instantânea e imediata de Deus, devolvendo-lhes tudo o que perderam? A condição de qualquer ser humano diante do Criador é de total e completa dependência da Sua graça e misericórdia. Se no estado de maior dedicação a Deus, o que chamamos de fidelidade, já dependemos integralmente da graça e do favor divinos, como esperar que, transviados, poderíamos impor ao Senhor o socorro? Não se cobra nada de Deus, apenas se agradece. O único som que se houve de pecadores ao sofrerem as consequências daquilo que eles próprios buscaram é o gemido de dor e agonia, uma vez que as lágrimas não fazem ruído mesmo quando jorram copiosas. Quando cessam o lamento e a murmuração, o desabafo da pequenez e da limitação humana, nasce o silêncio da resignação da vontade. É a humilhação da arrogância do pecador que achou que poderia viver autônomo e absoluto, à parte de Deus. O silencio torna-se o grito sincero de quem finalmente se desesperou de si mesmo, mas não de Deus. 

Outrora, a altivez e a jactância fizeram com que achasse que atingiu o céu, a realização de suas maiores vontades, mas, agora, conheceu a dureza do chão de onde foi tomado, rosto em terra, inequívoca glória a ser dada unicamente ao Senhor. Só Deus pode salvar, só Ele é a nossa salvação, é o Salvador da nossa alma. Nele esperarei até que, por fim, veja a consumação da sua misericórdia na restauração definitiva de minha vida. Todavia, enquanto isso, após apresentar diante dele minhas calamidade e gratidão, o silêncio será a minha prece e a minha esperança concreta. Não se ouvirá o som de muitos risos, embora, muitas vezes, as linhas de minha face esboçarão a alegria tranquila daqueles que passaram a confiar, sem reservas, em Jesus Cristo. O silêncio diz tudo! É expressão de verdadeira confiança e dependência. Ao invés de ficarmos murmurando contra Deus e o mundo, dominemos nosso espírito, façamos calar dentro de nós os muitos reclames, o contorcer da alma. Na expressão de Davi, é fazer calar e sossegar a alma (Sl 131.2), aquietar desejos e angústias olhando unicamente para o Senhor. Tenha um excelente dia na presença do Senhor 

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