Sem Deus no mundo
“naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12).
É curioso como o crente vive como se desconhecesse o lócus onde vive. Compreender o lugar em que habita e o chão onde pisa sempre serão figuras que denotam sabedoria. Todavia, para uma boa parte daqueles que se chamam crentes em nossos dias, a negação ou a ignorância parecem ser a melhor escolha. Dessa forma, ao invés de olharem para o mundo com os olhos de Deus, contemplam-no com a visão do próprio homem caído. Deus olha para o mundo e vê impiedade. O homem olha para o mundo e enxerga a possibilidade de realização de todos os seus desejos mesquinhos e egoístas.
A vida de serviço a Deus e da busca da vontade do Senhor tornou-se completamente incompatível com a igreja atual, sendo substituída por uma religião humana que tornou o homem o centro e o objetivo de todas as coisas. Sua busca por Deus tem como finalidade a satisfação dos seus próprios desejos, não o serviço do Reino de Cristo. Essa é uma evidência de que o crente hodierno está por demais afetado pela visão do mundo no qual habita. Ele se esqueceu que estamos no mundo, mas não somos do mundo.
O verso epigrafado traz as palavras do apóstolo Paulo aos crentes efésios, nas quais deixa claro que a marca indelével da verdadeira conversão é o rompimento definitivo e radical com o passado. É tão irreversível que o apóstolo se refere à impiedade da vida do crente anterior à conversão como sendo um passado remoto. Ele faz questão de demonstrar que se trata de algo que nós já vivemos sim, mas que está muito longe de ser nossa atual condição, mais do que isso, nossa essência, o que passamos a ser em nossa união com Cristo.
Ao referir-se ao nosso passado de impiedade, faz o apóstolo uma impressionante descrição da existência ímpia, de como vive e enxerga o iníquo ao utilizar cada dia do seu tempo nesta terra. Ele afirma que é um “estar-sem-Cristo”, uma condição de perdição irreparável. Muito interessante como Paulo se refere à condição do ímpio, pois a vê, como não poderia deixar de ser, diametralmente oposta à do crente.
Um dos pilares da teologia paulina é a doutrina conhecida como “estar-em-Cristo”. Para o apóstolo Paulo, todos os benefícios espirituais que recebemos como filhos de Deus ocorrem tão-somente porque estamos unidos ao Senhor, desde que assumiu seu ministério, morte, ressurreição, ascensão, e para sempre. Nossa salvação está garantida porque estamos usufruindo tudo o que Jesus já vive hoje. É irreversível e inevitável. O ímpio é descrito como alheio a tudo isso, pois está-sem-Cristo. Consequentemente, não pertence à família de Deus.
Paulo diz que a condição pregressa dos efésios era de estar “separados da comunidade de Israel”, isto é, não eram povo de Deus. Na Carta aos Efésios, o apóstolo afirma que o status do crente do Novo Testamento é superior à do Antigo, pois mais do que povo, somos agora família de Deus (v. 19). Porém, na iniquidade, o homem permanece representado por Adão e a queda, aliado do diabo em sua revolta contra Deus, longe das bênçãos do Pacto.
Esta última expressão explica a frase “estranhos às alianças da promessa”. O não-convertido não pode ser beneficiado pela graça especial de Deus, isto é, ser chamado “filho” e assumir todos os méritos da obra de Cristo. Todas as promessas eternas de Deus visando a habitação com ele são completamente desconhecidas por aqueles que não estão em Cristo. Por fim, vivem como se Deus não existisse, uma vida “sem Deus no mundo”. Essa é a descrição mais precisa que temos na Escritura da cosmovisão ímpia. Enquanto o crente é aquele que vê Deus em sua vida e em todos os acontecimentos, bem como, na própria Criação, o ímpio é aquele que está cego a tudo isso. Ele não apenas não tem a habilidade para ver, como também falta-lhe a vontade para tal. Ele quer viver para si, portanto, não deseja se submeter a nada e ninguém.
É importante considerar que essa é a proposta de existência de todo iníquo. O mundo das trevas tem essa proposta de vida. Isso caracteriza tudo o que faz o ímpio, mesmo naquilo que é considerado entre eles certo e aprovado. Quando se entrega uma cesta básica para ajudar um faminto, Deus não está ali. Quando associações médicas atendem miseráveis espalhados pelo mundo, Deus não está ali. Quando se faz um filme onde há uma referência à divindade, não é ao Deus verdadeiro que denotam, mas um deus sem face, sem livro, sem vontade, uma força que existe para apoiar todo desejo do coração humano. Tudo é feito do homem para o homem. Deus não está ali.
Observem que nós, como crentes, peregrinamos por um deserto espiritual durante boa parte do dia, morada do diabo, expostos às iniquidades e influenciados pelo mundo sem Deus. Nosso desejo deveria ser chegar logo em casa para poder encontrar um refúgio, um lugar “onde Deus está”, no sentido de que ali Deus e sua Palavra são considerados e vividos. No entanto, boa parte dos chamados crentes chega em casa e vai diretamente para a TV ou outras mídias, continuando a viver no mundo sem Deus. Nossa casa deveria ser verdadeiro refúgio, lugar de fortalecimento espiritual, mas se torna uma extensão do mundo sem Deus.
Uma geração de crentes que prefere a proposta da vida de ausência de Deus vive na amargura e nas depressões intermináveis, sem perceber qual é o motivo disso. Mesmo em nossa exposição diária pelo reino das trevas, quando estamos expostos à toda impiedade em nosso ambiente de trabalho ou acadêmico, precisamos pensar nas coisas do alto, mantendo-nos sintonizados constantemente a Deus, vivendo segundo a sua Palavra, pois já a tornamos parte de nós, guardando-a no coração. Vivamos para Deus em um mundo sem Deus. Vivamos a bênção de nossa união com Cristo a cada momento. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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