Total de visualizações de página

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ORAÇÃO


“Confia no Senhor e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade. Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração” (Sl 37:3,4).

 A teologia reformada é aquela desenvolvida por Calvino e seus seguidores. É conhecida por sua profundida e comprometimento com as Escrituras. A centralidade de sua compreensão repousa no entendimento da graça soberana de Deus. Exatamente por isso, não há teologia mais odiada entre os ímpios do que o calvinismo. Nela não há espaço para o homem, apenas para Deus. Enquanto o homem naturalmente busca a Deus para o transformar em servo de sua vontade, as Escrituras enfatizam o Senhor como causa de tudo, viabilizador de todas as coisas e objetivo último da existência. Por causa disso, por negar ao homem a centralidade e a vontade, muitos não crentes acusam Calvino de produzir pessoas esquizofrênicas e amargas, que temem a própria sombra, acreditando que a felicidade está paradoxalmente na negação de si mesmo e de todos os desejos do coração humano.

 Conquanto a verdadeira alegria realmente seja resultante da centralidade de Deus e do esvaziamento do homem, isso precisa ser corretamente compreendido. Nada há de mais antitético e contrário à vida do crente que vive a graça de Deus que a amargura. Pensando na realidade da oração atendida certamente é aquela que coincide e pede a vontade de Deus. O poder da oração não está em mudar a vontade do Senhor, algo que nunca jamais acontecerá, mas na transformação e modelação de nossa vontade, para que peçamos aquilo que o Senhor já tem determinado.

 Tais verdades vão de encontro às expectativas humanas, podendo trazer um ar sombrio sobre a vontade de Deus para a vida, como se aquilo que desejo esteja sempre e necessariamente errado. Dizer que a vontade de Deus é diferente da vontade humana é uma afirmação correta, mas longe de significar que a vontade de Deus SEMPRE será diferente da do crente. Na verdade, o que percebemos nas Escrituras é exatamente o contrário. O ensinamento que temos nas páginas sagradas revelam o Deus amoroso e bondoso, que procura, por meio de atos de amor, dar coisas boas, prazerosas e agradáveis aos seus filhos. É o que atesta o texto em epígrafe.

 Davi nos ensina no verso em tela que Yahweh se inclina a cumprir os desejos do coração daqueles que o agrada. Contudo, ao invés de uma noção meritória e “de causa e efeito”, devemos nos perguntar: o que deseja alguém que está agradando o Senhor? Sem dúvida, a glória de Deus. Esta é a primeira grande verdade quanto à oração respondida que precisamos compreender: é aquela feita na perspectiva da glória de Deus. Tudo o que quer o verdadeiro salvo, que conhece o amor gracioso de Jesus, que compreende a grandeza de seu sacrifício, é engrandecer o Senhor com sua vida e viver para a glória de Cristo.

 Isso quer dizer que tudo o que faz o fiel se resume a uma vida de oração, jejum, leitura da Palavra, culto e evangelização? Dizendo isso de outra maneira, que o crente não pode ter qualquer prática ou satisfação relativa a esta terra, uma vida semimonástica, dedicada apenas a práticas eminentemente ligadas a interesses que nada tem a ver com a satisfação humana? É claro que não! O Criador não apenas gerou os seres, mas também as suas experiências e satisfações. Ele é Senhor de todos os santos prazeres humanos, de todas as alegrias lícitas, preparadas para o benefício de seus filhos. Porém, como conjugar a glória de Deus e as vontades e alegrias humanas? O que difere a experiência do salvo da do perdido é que aquele procurará viver tudo isso glorificando o Senhor, em profunda gratidão, enquanto este fará tudo para sua própria glória, sem considerar em nada o Doador de todas as bênçãos.

 Davi nos ensina que Yahweh se agrada em satisfazer os desejos e necessidades terrenais do coração daqueles que buscam a sua glória, que envolvem trabalho, saúde, casamento, família, bens materiais etc. Entendamos, portanto, que a vida consagrada não é eremita e monástica, ascética, a negação das experiências terrenais, mas, antes, viver tudo o que é bom e agradável nesta terra para a glória de Deus. Tal afirmação já exclui a possibilidade de priorizar tais coisas, pois busca a glória do Doador de todas as coisas.

Segundo o que Paulo diz aos filipenses, o resultado do desenvolvimento de nossa salvação com temor e tremor é ter a nossa vontade modelada pelo Santo Espírito: “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:13). Aos coríntios, o mesmo apóstolo afirma: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1 Co 2:16). Quanto mais em comunhão com o Salvador, mais acessaremos o seu querer para nossa vida. Ora, se estamos procurando agradar o Senhor buscando a glória dele, crescendo na graça e no conhecimento de Jesus diariamente, tendo nossos desejos modelados pelo Senhor, acessando a mente de Cristo, certamente a maioria de nossos desejos e vontades expressos nas orações coincidirão com o propósito de Deus, não o contrário. Portanto, para aquele que busca fielmente viver para a glória de Jesus, geralmente sua vontade coincidirá com a vontade de Deus.

A má compreensão da dependência e da submissão que devemos ter quanto à vontade e o propósito de Deus leva necessariamente a uma vida de passividade e de frustração antecipada. A noção pessimista da presente existência por se dar em um mundo amaldiçoado pelo pecado não deve nos levar a perder a noção de que o Senhor pode e quer nos dar coisas boas. No Antigo Testamento, Davi, sem desconsiderar a maldade típica desta terra, externa sua expectativa da seguinte forma: “Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes” (Sl 27:13), em um salmo que começa questionando quem haveremos de temer se Yahweh é nossa luz, salvação e fortaleza. Como crentes em Jesus devemos querer e esperar viver coisas boas nesta terra, sabendo que também enfrentaremos sofrimentos e dificuldades conforme aquilo que o Senhor já determinou, pois basta para cada dia o seu próprio mal (Mt 6.34). Com tal afirmação já fica claro que o mal não é o que prevalece como a máxima de todo dia.

 Devemos viver na perspectiva do Pai amoroso, que deseja dar boas coisas aos seus filhos, bem como, sem jamais nos tornar passivos diante de tudo. Ao contrário disso, Jesus, usando o imperativo, exorta seus discípulos à atitude: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á” (Mt 7:7,8). O Senhor destaca a necessidade de “pedir”, de “buscar” e de esperar que a porta “se abra”. É uma noção extremamente positiva da oração, da coincidência de nossa vontade com a do Pai, que jamais dará uma pedra no lugar do pão ou uma cobra no lugar do peixe (Mt 7.9-11).

O crente deve entender que precisamos orar, buscar e esperar que o Senhor atenda a todo pedido lícito, que vêm de corações que buscam a glória de Deus, acreditando que serão atendidos, a menos que não sejam a vontade do Pai. Se buscamos o agrado de Deus é ele mesmo quem opera em nós o querer e o realizar, quem nos concede a mente de Cristo.

Certamente, devemos ficar sempre atentos para não confundir teimosia com perseverança. A primeira insiste com a vontade do homem, a segunda, com a de Deus. Centrando o Senhor e sua glória, também seremos hábeis para perceber se a porta está se abrindo, ou se permanece fechada. Insistir com a teimosia apenas aumentará em muito a decepção, por culpa estritamente nossa. Jesus disse a Paulo: “dura coisa é recalcitrar contra os aguilhões” (At 26.14).

Para longe de nós toda noção pessimista quanto à oração, consequência de corações já frustrados antecipadamente com a possibilidade da vontade desfavorável do Senhor. Se o que queremos acima de tudo é a glória de Deus, busquemos aquilo que acrescenta à nossa felicidade ou supre nossa necessidade, festejando sempre o Doador das bênçãos, muito mais do que os favores a serem recebidos. Essa deve ser a perspectiva do crente que conhece o Deus amoroso e a soberana graça. A oração de um justo tem sua eficácia (Tg 5.16), pois é sensível à vontade do Senhor. Creiamos que, se somos fiéis a Deus, nossas orações tendem a ser atendidas, embora nem todas. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus . 

Nenhum comentário:

Postar um comentário