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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

ORIENTAÇÃO

 A orientação segura

“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Sl 119.105).
Sabemos que o Salmo 119 é um acróstico. Estruturalmente, cada um de seus parágrafos segue a ordem do alfabeto hebraico. Significa dizer que toda linha do primeiro parágrafo começa com a primeira letra do alfabeto hebraico, no segundo parágrafo, com a segunda letra, e assim por diante, até o final do alfabeto. Por isso é que o salmo é tão grande. Essa foi a forma toda sábia que o Espírito dirigiu o salmista para compor um salmo que louva ao Senhor por sua Palavra. Em cada versículo há alguma referência às Escrituras por algum termo que se refere a elas, tais como “verdade”, “testemunhos”, “estatutos”, “juízos” etc. Vale-se de todos os caracteres hebraicos, dos quais as palavras daquela língua são feitas, para, sem deixar nenhum de fora, louvar ao Senhor, mostrando que só ele é digno de todas as letras.
Entendamos sempre a preciosidade das Escrituras para a nossa vida. O Senhor foi o primeiro escriba. Foi ele quem inaugurou a escrita sagrada. Dizendo isso de outra forma, Yahweh foi quem deu início à Palavra escrita quando, com seu próprio dedo, escreveu as tábuas de pedra e as entregou a Moisés. O Senhor não tem assinatura, mas escreveu as tábuas da Lei “de próprio punho”, como se diz. Deus quis que sua verdade fosse registrada a fim de que se tornasse “escritura”, isto é, um documento, algo que fique para testemunho de sua vontade como legado para todas as gerações. O Criador quis se revelar aos homens em linguagem compreensível para dar a entender, nos limites mais remotos da capacidade humana, a profundidade do seu Ser e de seu amor. A Escritura é tão importante e central que se “confunde” com o próprio Cristo. Ele é a Palavra encarnada de Deus.
É exatamente disso que fala o texto epigrafado. O gênero dos salmos é poesia. Significa dizer que são construídos seguindo uma característica da literatura hebraica conhecida como “paralelismo”. Há vários, sendo os mais utilizados: o sinônimo, o antitético e o sintético. Uma olhada superficial poderia levar à compreensão de que se trata do primeiro tipo, isto é, que as duas sentenças que compõem o verso dizem a mesma coisa. Assim, os termos das duas se equivaleriam: a palavra é “lâmpada e luz” que ilumina os “pés = caminho”. Embora o entendimento do paralelismo esteja diretamente ligado à compreensão do intérprete bíblico, a mim me parece que a segunda sentença tem significado ligeiramente diferente, indo além do que implica a primeira.
Embora na cultura hebraica “pés” e “caminho” tenham significados figurados semelhantes, podendo ser entendidos como “procedimento”, teologicamente parecem assumir sentidos complementares no texto em tela. A lâmpada tem o objetivo de iluminar especificamente o lugar específico onde se coloca os pés. Mesmo hoje corre certo perigo alguém que, ao invés de iluminar onde está pisando, dirigir o facho de luz apenas para frente. Poderá enfiar o pé em um buraco, tropeçar em alguma pedra ou, se for um ambiente florestal ou rural, pisar em uma cobra. Nesse sentido, entendemos como a Palavra de Deus nos ilumina o caminho, no sentido de nos dar uma forma de andar segura. Significa dizer que, pela obediência às Escrituras, modelando a vida pelos santos ensinamentos, vou andar de forma segura.
Já a segunda sentença fala da luz lançada não aos pés, mas no caminho. Certamente, as duas sentenças descrevem o que natural e instintivamente faz quem anda na escuridão. Ele dirige o foco da claridade para onde vai por os pés, mas ocasionalmente também orienta o foco de luz para a frente, para orientar a direção por onde seguir, isto é, compreender qual o caminho a seguir. Há sempre diante de nós vários caminhos. Não temos acesso aos propósitos de Deus para a nossa vida, mas guardar a Palavra de Deus em nosso coração, modelando aquilo que somos, nos inclinará naturalmente, por nossos desejos e decisões, ao caminho correto. Tornamo-nos, assim, sensíveis à voz e à vontade do Senhor. O próprio Espírito Santo nos fará pender ao propósito do Senhor para nossa vida. O verso, por suas duas sentenças, trata daquilo que a Teologia chama de vontade preceptiva e vontade decretiva de Deus, sendo a primeira seus preceitos que nos modelam a vida e, a segunda, o propósito do Senhor para cada eleito.
Destaca-se a centralidade da Palavra para nossa vida, da Palavra, que sabemos, é Jesus. Na verdade, há vários termos no verso que são aplicados a Cristo: palavra, luz e caminho. O apóstolo João o chama de Logos, “palavra” (Jo 1.1), bem como, de luz e caminho: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14:6). Jesus é aquele que nos dá a conhecer a verdade, que ilumina o caminho que conduz ao Pai, de quem procede a verdadeira vida. Ter a Palavra como lâmpada para os pés e luz para o caminho é viver Cristo em tudo o que fazemos. Nele está a nossa segurança e retidão.
Às vezes pensamos na necessidade da luz como algo mais voltado para o “ímpio”, alguém que necessita da luz para a salvação. No entanto, não é esse o caso do texto em epígrafe. O salmista era convertido. Por isso, fala do poder e da importância da Escritura para o crente. Devemos entender que vivemos em um mundo de trevas. Nesse sentido, sempre estamos no escuro. Devo entender que é unicamente na Palavra que entendemos como andar e por onde ir. É guardando-a que obedeço ao Senhor. Assim, ando de forma segura e sou guiado por onde ir. Será o próprio Jesus a caminhar comigo, me guiando no caminho. Mesmo o crente, se atingido repentinamente por situações adversas ou sentindo o peso da dor que parece não admitir cura, por vezes se sentirá “perdido”, isto é, sem saber por onde ir. Deve se voltar integralmente à Palavra, à comunhão com Jesus, para entender o que fazer. Nele temos forças e orientação segura. Tenha um abençoado dia na presença do Senhor

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