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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

REFÚGIO

 Deus é o nosso refúgio

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente nas tribulações” (Sl 46:1).

É curioso que uma das figuras que os salmos utilizam para retratar Deus em seu contato com os homens é a de "refúgio". Torna-se até mesmo irônico, pois o ser humano fugiu do Criador no princípio, aquele que se constituiu como fonte de todo bem e felicidade, com quem deveria viver em união indissolúvel. A grande contradição, assim, se estabelece: aquele sumo bem de quem o homem se evadiu, contra quem se revoltou originalmente, agora se constitui "refúgio".

A insurreição do homem contra o Criador foi, na verdade, usurpação. O que o diabo propôs para Eva não foi apenas desobedecer, mas ser um deus para si. Dessa forma, o lugar de Deus na existência humana iria ser ocupado pelo próprio homem. Dizendo isso de outra forma, ao invés de viver como criatura que era, o homem passou a viver como um deus. Na prática, implica dizer que o mundo criado e ordenado por Deus agora passou a ser um mundo de homens, orientado para os planos e prazeres humanos, não mais para a glória de Deus, mas para a glória dos homens.

Nisto está mais uma contradição da existência humana: a busca da glória foi sua própria ruína. Ao se estabelecer como centro de tudo, como alvo primeiro e último de tudo o que faz, o pecador se afasta mais e mais de Deus, deixando de experimentar a genuína glória. É necessariamente assim, pois não há glória à parte ou fora de Deus. Toda glória já é dele, pertence unicamente a ele. Fomos originalmente criados para compartilhar a glória divina. O Senhor reparte sua glória conosco.

A tentativa do homem de gloriar-se em si mesmo é impossível, pois a criatura é incapaz de produzir glória. Esta pertence unicamente ao Criador por seus próprios atos. A glória que se vê no homem, em todos seres criados e na Criação de forma geral, não pertence aos seres, mas àquele que os criou. É glória de Deus no homem, glória de Deus na Criação. Daí a bela expressão de Calvino, quando diz que "a Criação é palco da glória de Deus".

O desejo humano de se gloriar está no cerne do pecado, de sua autodivinização. Por isso, aprecio a definição de pecado de Jonathan Edwards, quando diz que "pecado é roubar a glória de Deus ". Essa afirmação aprofunda nossa compreensão, pois destaca aquilo que é o motor e a causa de toda desobediência, de toda transgressão e inconformidade com a Lei: o desejo de ser um deus, o centro e o objetivo de todas as coisas, de tudo o que se faz.

A ideia de "refúgio" pressupõe adversidades. Se preciso me refugiar é porque há alguma situação de perigo ou dano que se acerca. Deus, que era originalmente nosso Éden, o que dava sentido e conteúdo ao paraíso como lugar de vida e felicidade plenas, agora é para nós lugar para onde fugimos das agruras e tristezas desta terra, um esconderijo das tribulações deste mundo.

Deus se estabelece como um "lugar" onde nos sentimos seguros. Mais uma vez a figura do Éden é sugestiva. Mesmo em nossos pecados o Senhor nos atraiu para ele, para sua obra de redenção. Pagando nossa dívida, nos restaura plenamente na morte e ressurreição, recompondo assim o sentido original da existência na união perene com o Criador na eternidade divina. Jesus é o significado do Éden, em quem o sentido do Éden se cumpre. Em suas duas naturezas como Deus e homem, em seu ser a humanidade e a divindade se encontram e se fundem eternamente. Não há como separar mais Deus dos homens e os homens de Deus.

Nossa experiência com o Senhor sempre será traduzida na dinâmica da chamada tensão escatológica do “já” e do “ainda não”. Dizendo isso de outra maneira, a obra de Jesus em nossa vida já está consumada, pois já somos salvos, mas, ao mesmo tempo, ainda não está consumada, pois não vivemos a plenitude no novo céus e nova terra. Aplicando tal princípio ao que temos dito, podemos dizer que já estamos no lugar de refúgio, no esconderijo do Altíssimo, mas também é verdade que implica para nós um constante retorno ao Senhor. Nossos pecados nos afastam de Deus. Por isso, na medida em que nos distanciamos de Jesus por nossos próprios pecados, é nossa responsabilidade buscá-lo no mais profundo e revigorante arrependimento, fazendo morrer nossa natureza terrena. Estamos em Deus como nosso refúgio, mas também nos encontramos constantemente retornando a ele, ouvindo sua voz graciosa e desfrutando de seu perdão.

Entreguemo-nos a uma vida de adoração diária, com momentos específicos de comunhão, mas também dedicando cada momento para a glória de Jesus. Para longe de nós o pecado, tudo o que nos afasta de Deus, priorizando a obediência e o relacionamento com pessoas que nos aproximem do Senhor. Essa é nossa parte para habitarmos em Cristo como nosso eterno lugar de refúgio. Tenha um excelente dia na presença de Jesus 

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