“Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Sl 115.1).
O projeto do Senhor para a nossa vida visa exclusivamente a alegria. Deus quer que sejamos plenamente felizes. Não por acaso, Jesus, assumindo seu personagem “profeta semelhante a Moisés”, sobe ao monte para proclamar sua Lei, naquilo que ficou conhecido como “Sermão da Montanha”, assim como seu precursor veterotestamentário, e destacou a perfeita alegria como alvo máximo da obra do Pai na vida dos discípulos, isto é, ser um bem-aventurado.
No entanto, uma coisa que geralmente nos escapa à percepção é que não é possível haver verdadeira e real felicidade sem que tenhamos plena satisfação na graça de Cristo. Uma pessoa insatisfeita jamais será feliz. É a graça de Deus em Jesus o único poder que sacia os anseios da alma. Para que isso ocorra, é necessário que o pecador perceba a extensão do dom, o valor da graça que recebeu em sua própria salvação. A gratidão sempre será diretamente proporcional à compreensão do valor daquilo que recebemos.
Talvez não haja cena que ilustre melhor essa realidade do que a daquela mulher, chamada pecadora, que entrou na casa de um fariseu e lavou os pés de Cristo com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos (Lc 7.36-50). Tratava-se de uma mulher que havia corrompido corpo e alma na prostituição, mas que agora vivia a pureza da redenção, de uma nova natureza. Aquilo que ela vivia por causa de Jesus foi mais do que suficiente para entrar na casa de um fariseu, correndo o risco de ser colocada para fora literalmente aos pontapés, para demonstrar toda a sua gratidão ao Senhor. Sua vida não era mais importante do que sua vontade de adorar a Cristo por meio de sua atitude, expressão de seu amor pelo Salvador.
A gratidão que temos pela graça que encontramos em Jesus é equivalente à nossa satisfação por aquilo que ele realizou em nossa vida. Um coração satisfeito é necessariamente um coração agradecido. A gratidão ao Senhor é o mecanismo do culto. A adoração prestada por aqueles que têm a agradecer apenas bênçãos temporais nunca alcançará a intensidade daquela produzida por corações contritos, profunda e inteiramente agradecidos, pelo maior de todos os tesouros, por aquilo que apenas Jesus poderia fazer.
É importante também entender como nossa felicidade na satisfação da graça de Cristo também significa santidade. Não é por acaso que estruturalmente o décimo mandamento, que proíbe a cobiça, é aquele que mais se distancia do primeiro, que afirma a adoração unicamente ao Deus verdadeiro. Essa antítese é intencional, pois estabelece realidades opostas. Cobiçar é fazer-se um deus para si mesmo, contrariando frontalmente o primeiro mandamento. Aquele que cobiça quer simplesmente realizar a sua vontade, desconsiderando qualquer princípio, compromisso ou responsabilidade. A cobiça visa simplesmente a realização de um desejo do coração humano, a expressão de uma existência centrada no homem. É o pecador o centro de todo ato de cobiça.
Todavia, o que não paramos para pensar, também, é que a cobiça sempre demonstra a insatisfação de um pecador. A insatisfação é o ambiente da cobiça. Devido ao fato de estar insatisfeito, o coração carnal se desperta para a saciação de suas vontades fora de Deus e em desacordo com os santos princípios das Escrituras. Consequentemente, o coração cobiçoso reflete indiscutivelmente uma alma triste, ansiosa e insatisfeita. Se, ao contrário, a alma experimentar a plena satisfação na graça de Cristo, todas as coisas serão agregadas ao fato principal: Jesus. Todas as demais coisas se tornam secundárias. Se há muito ou pouco materialmente não interferirá na alegria, fruto da satisfação em Jesus. Eis o motivo de, não raro, encontrarmos irmãos de poucas posses materiais, mas extremamente felizes, pois satisfeitos em Cristo.
Eis o motivo por que um crente feliz é necessariamente santo. É certo que tem prazer na Lei do Senhor, pois ama tudo aquilo que reflete o caráter de Deus. Porém, além disso, ele está saciado na graça de Jesus, apto a descansar diante de todas as vicissitudes da vida. O crente precisa entender que quando simplesmente insiste com sua própria vontade está trilhando o caminho da insatisfação, da tristeza e da cobiça.
O verso epigrafado traduz a alegria e a satisfação de um coração saciado em Deus. Tem como objetivo de sua vida a glória do Senhor, completamente decentralizado dos desejos e da glória de um coração humano. Prefere esperar na graça e na misericórdia de Cristo do que em sua própria vontade e entendimento. Orientar nossa vida para a glória do Senhor, plenamente saciados na graça de Cristo, é nossa alegria e santidade. Tenha um excelente dia na presença de Jesus
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