Por muito tempo, me senti cobrado em resolver os problemas de todos. A maturidade me ajudou na compreensão de que cada qual deve fazer a sua parte. Gosto muito desta máxima: ‘ajuda-te que eu te ajudarei.’ Sabe que o impulso de consertar tudo pode parecer virtude, mas muitas vezes é apenas medo disfarçado de controle. Queremos ajustar pessoas, situações, sentimentos, como se a harmonia do mundo dependesse exclusivamente do nosso esforço. Essa postura cansa, sobrecarrega e, no fundo, revela dificuldade em aceitar limites. A vida não foi entregue a ninguém como tarefa solitária de reparação universal. Há processos que não nos pertencem, escolhas que só o outro pode rever, caminhos que precisam ser percorridos sem a nossa interferência constante. Quando se tenta resolver tudo, o coração perde a leveza e se distancia da própria medida. Deus não nos pede onipotência, pede confiança. Ele age onde não alcançamos, sustenta o que não entendemos, conduz histórias que jamais teremos controle total. Reconhecer isso não é desistir, é amadurecer. Há sabedoria em discernir onde agir e onde apenas permanecer presente. Nem toda dor alheia pode ser curada por nós, nem todo conflito precisa da nossa mediação. Às vezes, o gesto mais amoroso é respeitar o tempo do outro e aceitar que a solução não virá das nossas mãos. Essa renúncia ao controle traz serenidade inesperada. O coração começa a respirar melhor quando abandona a pretensão de ser indispensável. Não se trata de indiferença, mas de humildade diante da complexidade da vida. Deus continua trabalhando mesmo quando descansamos das tentativas incessantes de organizar tudo. Há uma paz profunda em confiar que o mundo não desmorona se não estivermos no comando. Quando se solta o excesso de responsabilidade, sobra espaço para viver com mais autenticidade, para cuidar do que realmente foi confiado a nós. E nessa escolha de não consertar tudo, a alma encontra equilíbrio. A vida segue seu curso, e o coração aprende que nem toda missão é sua. Algumas coisas precisam apenas ser entregues, não ajustadas. Este limite alcança a calma de que necessitamos.
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