Total de visualizações de página

quarta-feira, 17 de abril de 2024

PRESENTE

  

Gosto de imaginar a vida como um trem. A cada estação, pessoas embarcam, enquanto outras descem. Algumas, por terem chegado ao seu destino, outras, porque precisam fazer baldeação, tomar outro trem que as leve ao seu destino. Quantos embarcaram ou desembarcaram do vagão de nossa vida ao longo dos últimos anos? Os que fazem baldeação, simplesmente trocam de trem, mas continuam por aí, prosseguindo em sua jornada existencial. Pode ser que em algum momento, a gente se cruze novamente (se bem que, às vezes, a gente prefira que não). Há ainda os que não descem do trem, mas mudam de vagão por já não apreciarem nossa companhia. E quanto aos que chegaram ao seu destino? Refiro-me aos que nunca mais veremos, pelo menos, não nesta vida. Quantas saudades deixaram! Seus lugares ficaram vagos e não há quem possa preenchê-los. 


Afinal, o que torna alguém insubstituível na vida da gente? Por que deixam uma sensação de vazio ao partirem? Lemos no livro de Atos dos Apóstolos acerca de uma discípula chamada Tabita, conhecida também como Dorcas (tive uma prima com este nome e que partiu ainda jovem). O escritor faz questão de ressaltar que ela estava “cheia de boas obras e esmolas que fazia”. Portanto, tratava-se de alguém solidário com o sofrimento humano, que se negava a levar uma vida autocentrada. 


Naqueles dias, Tabita ficou enferma e veio a falecer. Sabe o que fizeram com o seu corpo? Ora, o que se esperaria que se fizesse a um corpo sem vida? Sepultasse, certo? Surpreendentemente, em vez disso, banharam-na e puseram-na no quarto mais alto da casa. Quem em sã consciência faria tal coisa? Mas o que pode parecer insano, na verdade, revela o quanto Tabita era importante para aquela comunidade. Muito além de uma medida sanitária que visa nos precaver da infestação de bactérias provenientes de um corpo em decomposição, o sepultamento é um ritual através do qual dizemos adeus ao corpo da pessoa amada. Depositar o corpo de Tabita no quarto mais alto da casa era recusar-se a dar aquele adeus esperado. Obviamente, eles sabiam de todos os riscos. O processo de decomposição seria seguido pelo de putrefação. O cheiro ficaria insuportável. Mas por Tabita, valia a pena o esforço. Suas expectativas quanto a ela não haviam se esgotado. Uma inexplicável esperança teimava em perdurar. Em vez do fatídico goodbye, preferiram deixá-la em stand by. 


Quantas coisas em nossa vida temos sepultado ao menor sinal de desgaste? Relacionamentos que deveriam ser perenes são simplesmente descartados. Sonhos que nos acalentaram durante a juventude são engavetados tão logo tenhamos chegado à maturidade. Amizades enterradas vivas. Não seria o caso de nos recusarmos a sepultá-los? Até que ponto não nos temos entregado a um luto precoce? Não seria melhor depositá-los num lugar alto de nossa vida, acreditando que a qualquer momento o quadro possa ser revertido? 


Ao serem informados de que Pedro estava nas circunvizinhanças, enviaram-lhe dois homens, “rogando-lhe que não demorasse em vir ter com eles.” Sem saber do que estava acontecendo, Pedro prontamente atendeu. Ao chegar à casa, deparou-se com uma cena inusitada. Chegando ao aposento em que jazia o corpo de Tabita, o apóstolo se viu rodeado por viúvas que chorando, exibiam as túnicas e roupas que ela lhes havia confeccionado. 


Mudando um pouco o foco: será que temos sido imprescindíveis na vida de alguém? Quantas “túnicas e vestidos” já costuramos para quem não tinha o que vestir? Que diferença temos feito na vida dos que nos acompanham nesta jornada? O que cochicharão entre si quando nosso corpo inerte estiver descendo à sepultura? Alguém seria capaz de reivindicar nossa restituição como fizeram a Tabita? Ou alguém deixaria escapar por entre os lábios: já foi tarde!? Pedro, visivelmente comovido, pediu que todos se ausentassem do cômodo, pôs-se de joelhos e orou. Rogou a Deus que restituísse aquela vida tão preciosa. Dirigindo-se ao corpo, disse: “Tabita, levanta-te. E ela abriu os olhos, e, vendo a Pedro, assentou-se. E ele, dando-lhe a mão, a levantou e, chamando os santos e as viúvas, apresentou-lha viva” (Atos 9:36-41). 


O que importa não é o quanto teremos amealhado para nós mesmos ao longo de nossa vida, e sim o bem que houvermos feito ao nosso semelhante. Se nossa vida houver sido verdadeiramente presente, nossa ausência será sentida e lamentada. Muito mais do que distribuir presentes é ser presente, digo, em ambos os sentidos. Ser presente no sentido de marcar presença e no sentido de ser uma dádiva. A propósito, nenhum presente material é capaz de compensar a ausência. Estar presente é mais importante do que cobrir alguém de presentes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário