Doces lembranças, lágrimas do presente, alegria do porvir
“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião” (Sl 137:1).
Há situações em nossa vida nas quais o passado parece ser a única coisa que nos recorda a alegria. Certamente, isso se dá quando nosso presente é desalentador e dilacerante. Se o que estamos vivendo significa dor e tristeza, dificilmente conseguimos divisar algo positivo no futuro. Quando muito, o porvir parece onírico, a expressão de um sonho que, por maravilhoso que seja, é tão diferente e oposto à realidade que se vive presentemente, que nos parece completamente improvável, mesmo impossível. Aquilo que para outros é tão comum: o trabalho e o sustento, o cônjuge, a saúde, bênçãos da graça comum de Deus mesmo aos ímpios, muitas vezes faltam mesmo aos filhos em ocasiões quando o propósito do Senhor parece moer os nossos ossos. Ansiamos pelas coisas mais básicas da existência, como o sedento por ser dessedentado.
Os sofrimentos sempre representarão dificuldade para a compreensão do crente. Se padecemos por nossos próprios pecados, como foi o ambiente do texto epigrafado, a expectativa da melhora parece mais difícil e distante, pelo senso acentuado de nosso merecimento do sofrimento. A culpa nos dá a sensação de que a misericórdia do Senhor se demorará mais a se manifestar em nosso auxílio, no alívio de nossas mazelas. Se, ao contrário, a dor se abate quando vivemos de forma fiel, temos dificuldade de a assimilar, geralmente acreditando que há pessoas piores do que nós que não passam por aquilo que enfrentamos. Por mais que entendamos que não temos mérito diante de Deus e que o fato de ser pecadores faz com que todo sofrimento que passamos seja justo, há sempre um resquício de justiça humana em nós que espera a retribuição à nossa pressuposta justiça.
O propósito de um Deus amoroso não exclui as mais terríveis privações. A nós nos cabe simplesmente crer que mesmo isso é para o nosso bem. Geralmente, a nós nos parece que a demonstração do amor do Senhor sempre se dará por meio de coisas que nos são agradáveis e prazerosas. No entanto, de uma forma incompreensível, ficamos desnorteados com situações que se abatem de maneira imprevisível. Levados pela torrente dos problemas, o desejo por experimentar novamente alguma segurança faz com que mesmo um barbante nos pareça uma corda, no qual nos agarramos como se fosse a certeza da melhora que finalmente irá começar, apenas para perceber que se tratava de uma ponta solta, mais um sonho que se desvanece. A dor muitas vezes é acentuada pela solidão, não apenas a que erradamente se busca, mas também aquela que se experimenta no abandono de pessoas queridas que verdadeiramente confiávamos que estariam conosco até que a tormenta passasse.
O texto epigrafado retrata uma cena típica da história do povo de Deus. Em 587 a.C. Judá caiu diante dos Babilônicos e o povo foi levado cativo. O exílio trazia grandes dificuldades para a vida, mas também tinha grande significação espiritual. Para o descendente de Abraão, a bênção de Deus estava ligada invariavelmente à posse da Terra Prometida. O desterro tinha como sentido a anulação da Promessa, a perda da posse daquilo que os israelitas mais presavam. É como se estivessem exilados não apenas da Terra, mas do próprio Yahweh. Certamente, o Senhor não estava sendo infiel. Muito ao contrário disso, o contrato da aliança especificava que sua quebra por parte do povo implicaria exílio. Dessa forma, quando Deus permite que seu povo seja levado cativo, nada mais está fazendo do que ser fiel à aliança que estabeleceu.
O texto epigrafado é extremamente pictórico e significativo. Quem já viu o rio Tigre, em cujas margens estava a capial do Império Assírio, certamente ficou impactado não apenas com a magnitude do majestoso curso de águas, mas também suas exuberantes barrancas. São dezenas de metros de altura do seu topo até as águas. A sua forma angular lembra uma enorme arquibancada. Para alguém que conhece as Escrituras, é impossível não lembrar do salmo em epígrafe, imaginando a multidão de cativos sentados nos barrancos, torturando-se com as alegrias do passado. É interessante como a lembrança das bênçãos vividas se transforma em tristeza quando a situação que se vive presentemente é exatamente sua antítese. Tal contraste tende à amargura.
O salmo pinta um quadro, uma cena bastante tocante: o majestoso rio se tornava tributário do choro dos cativos. Dizendo isso de outra maneira, as copiosas lágrimas dos escravizados e desterrados, por abundantes que eram, abasteciam o poderoso curso de águas. O enorme rio representa o tamanho da tristeza do povo. Longe de casa, muitas famílias desfeitas, sem liberdade, sem a possibilidade de adorar ao Senhor em Sião, isto é, Jerusalém, os cativos penduravam as suas harpas por não conseguirem louvar a Yahweh em tal realidade.
Experimentando também intensa dor e sofrimento, em contexto igual àquele do texto epigrafado, o autor do salmo 42 escreveu: “As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está? Lembro-me destas coisas — e dentro de mim se me derrama a alma —, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa. Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl 42:3-5).
Devemos aprender a esperar em Deus e buscar louvá-lo especialmente pela realidade de Jesus em nossa vida. A adoração sempre será antídoto às nossas maiores tristezas. Cabe-nos olhar para o grande amor de Deus demonstrado e comprovado na cruz de Cristo, para que não sejamos consumidos pela amargura em momentos de crise, de dor e de tristeza. A alegria não está apenas no passado, na memória seletiva daquilo que já vivemos, mas está também no futuro eterno, que extinguirá toda lágrima. Ao invés de um enorme rio de lágrimas haverá apenas o que frui do trono de Deus, cálido, de águas cristalinas, as bênçãos eternas de Deus em Cristo, a fonte de águas da vida. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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